Gostar de gente demais desparafusa um pouco a cabeça. Rasga a gente no meio, despedaça tudo como se fosse caco de vidro. Acho que somos gasolina, sempre esperando uma faísca. Estamos sempre esperando uma oportunidade para foder tudo... E quer saber? Que se foda.
De um jeito ou de outro, o destino sempre te coloca contra a parede. Te revista, procurando por explicações ridículas escondidas. Pede sua identidade e te dá um tapa na cara quando você esquece ela em casa. Algumas pessoas simplesmente não valem a pena e isso não é tão ruim. Não adianta se esticar demais pra alcançar o que não vale a pena.
É claro, falo disso tudo. Eu também não valho a pena. Não se já passei, se o que tinha pra oferecer acabou e deixou só lembranças no lugar. Chega de sonhos, nesse mundo existem leis feitas para serem quebradas e outras para se seguir à risca e quando colocamos os pés do outro lado da linha podemos ser surpreendidos pelos vigilantes. Dá pra entender?
A raposa que entra no galinheiro vigiado é confiante demais, esperta e rápida demais e por isso passa pela cerca em busca dos ovos com as orelhas levantadas, mas quando se aproxima demais acaba desprezando os perigos, não sentindo o cheiro de pólvora e o cano frio da espingarda. Eu sei, metáforas cansam, assim como as pessoas, algumas pessoas deviam chegar, ficar e ir embora de vez.
Porque nós sabemos, nos fazemos de estúpidos, mas sabemos que essa vida é uma porra de estação de trem, trazendo pessoas que talvez não fiquem tanto, levando pessoas que talvez voltem logo. É simples resolver, simples decidir, muito simples de perceber que isso é semelhante àquela viagem que fez algum dia para qualquer lugar que te traga saudade e uma felicidade intragável, mas que por algum motivo faz pensar que nunca vai voltar, que no máximo passe por ela à cem quilometros por hora na rodovia. O que te faz pensar que se voltar a vê-la vai ser de longe e no entanto também te faz pensar que é exatamente assim que deve funcionar, pois certas viagens devem ser feitas apenas uma vez.