"Não me roube a solidão sem antes me oferecer verdadeira companhia."


Friedrich Nietzsche



sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Bebendo vinho...

Parece que tudo está bem, mas por mais incrível que pareça, ele acaba sentindo-se entranho sentado sozinho no sofá quase rasgado de sua sala de estar, com uma garrafa de vinho aberta, uma taça quase cheia e uma maço de cigarros ao lado. Não estava tão acostumado a essa solidão repentina. Eis que lembra-se de uma coletania do Sublime e aumenta o volume pra tentar afastar a solidão dessa sala vazia. Procurando companhia na voz de Bradley James Nowell, ecoando em suas reverberações. Deixando-se levar pelos ecos do dub, quase dançando sozinho por dentro e absorvendo os ecos, sintetizadores ou até mesmo as mudanças leves ou bruscas de um reggae para um hardcore.
Percebe que já é véspera de ano novo, tenta lembrar-se dos bons e maus momentos deste ano, mas nunca foi bom demais para isso. Acaba percebendo que é só mais um dia a mais e que após toda a festa, voltará a viver a mesma vida, como em um carnaval fora de época.
Tudo bem...
Sua garrafa de vinho ainda está na metade. Pergunta-se se existe alguma outra forma melhor para terminar mais um dia de trabalho senão abrindo um Cabernet Sauvignon e fumando seus últimos cigarros. Por mais incrível que pareça a solidão da casa lhe faz bem. uma liberdade quase intestável, quase intangível.
Seu sound sistem grita a canção What I've got enquanto ele se lembra de tempos atrás de quando andava de skate, encarava qualquer 'roda punk' e bebia ou usava qualquer coisa que lhe ofereciam...
"É meu amigo, o tempo passa..."

Enfim, ele resolve abandonar sua taça quase vazia e ir dormir. Talvez sonhe com ela, com sua antiga banda de Ska ou com seu time sendo campeão. Tanto faz...
Afinal, é véspera de ano novo e talvez não há nada melhor pra esperar nesta noite, a não ser uma boa noite de sono, talvez...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Talvez isso seja sua culpa!

-Acho que me saí bem - respondendo a si mesmo - Definitivamente, me saí bem!

Algo havia mudado, sem muitas razões ou causas aparentes, mas definitivamente o curso deste rio havia se desviado. Perdera alguns de seus afluentes que acabaram secando, mas tornou-se mais largo, mais fundo e, não mais, tão sinuoso.

-Acho que sim. - ela disse-lhe - Pode ser que você tenha razão, mas o que tudo isso quer dizer?
Ele tenta absorver a pergunta e formular uma resposta que não pareça estúpida ou pequena demais para encarar a questão. No fundo, sabia que ela era parte fundamental daquela mudança, mesmo chegando depois de muita água ter passado por baixo da ponte.

-E então? - ela insiste.
-Não sei, doce. Talvez seja algo natural, uma necessidade repentina por equilíbrio... Não sei!

Talvez não fizesse tanta diferença, o futuro continuava sendo uma incógnita, mas agora ele tinha ela por perto, por mais que as vezes fingisse que não a tinha e até chegou a pensar que não a teria. Mas agora ele sabia.

Seria uma chance de tentar fazer algo direito, que realmente desse certo, que representasse algo?

- Não te entendo, sabia?
É claro que ela não entenderia, aliás, como poderia?
- O que eu posso dizer? - ele responde, ou tenta - Talvez seja felicidade, talvez seja a nova rotina, talvez seja você... Talvez isso seja sua culpa!

Ela enrubesce, talvez não acreditasse ou não esperasse fazer parte disso mas no fundo, ao menos, desejava ouvir isso. Ela parece feliz também, sempre o encarou nos olhos com um jeito encantador, um certo brilho entre o infantil e o diabólico. Sempre o beijou com um jeito de menina e de mulher. Hoje ela seria anjo ou demônio?

- Porque eu? - questiona com um sorriso bobo e retruca com uma provocação esperta - A gente mal se conhece, quer dizer, a gente se conhece há pouco tempo.
- Desde quando isso faz diferença? Não devíamos mensurar isso pela intensidade e não pela duração? - Ele pergunta respondendo.

Ela não precisa responder. Os dois percebem quanta verdade havia ali e ambos consentem. Então, de repente, um breve momento quase constrangedor de silêncio, ela dá um passo à frente, beija-lhe na boca e lhe abraça, encostando sua cabeça no peito dele.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Dancing with myself...

Ela abre os olhos, continua com a boca perto da minha, me olha e diz que quer dançar...
Tudo bem, temos tempo pra tudo nesta noite. Mais uma cerveja, mais até do que eu posso pagar...
Tudo bem, acaba valendo a pena ver ela dançando com seus amigos, divertindo-se de longe. Talvez ela não se importe tanto, afinal é só diversão, ela tem razão.

Me flagro pensando na possibilidade de atrapalhar sua festa, calar aquele sorriso com a minha boca. Acabo hesitando e até me permito sorrir por dentro assistindo à sua felicidade. É perceptível que ela, às vezes, acaba encontrando meus olhos estacionados nela e me encara de volta por um momento. Mal chego a sentir ciumes do encantador charme com que ela dança com qualquer rapaz desajeitado.

Novamente, tudo bem.
Ela não é minha e nem de mais ninguém, não nesta noite. Não há motivos pra antecipar ou atropelar nada agora. Vou sair pra fumar um cigarro do lado de fora e conversar um pouco com as pessoas que estão lá.
E ela?
Deixe ela dançar...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

She is a punk rocker...

Últimos passos da rua até a portaria, um 'boa noite' cansado para o vigia noturno e mais alguns passos até a minha porta. Desviro duas vezes a chave, abro a porta e sinto o cheiro da casa, nem tão bom ou ruim, apenas familiar...

Ouço uma torneira ligada e uma voz vinda da cozinha, cantando qualquer coisa ininteligível, áspera mas doce ao mesmo tempo. É a voz dela. Tenho a impressão de conhecer a harmonia da música e não a interrompo, a não ser por outro boa noite cansado. Vou ao quarto onde deixo minha jaqueta em qualquer canto e sento na cama pra desamarrar as botas.

Enquanto isso, a canção assume tons mais agressivos em um inglês sofrível, com palavras que parecem ter sido inventadas, seguidas vez ou outra por um 'abrasileirado' whatever, fuck off ou I don't care, que eu não sei bem se ela sabe o que significa. Porém o refrão tinha sido bem decorado, em um inglês fluente e convicto, que sempre se amplificava dando sentido a frase: You only try to put me down!!!

Acabo não sabendo como interpretar ou definir as razões por ela cantar em alto e claro o refrão, como se fosse a pressão correndo pelas cordas vocais usando a boca como válvula de escape. Mas, agora parado na porta da cozinha, observando-a lavando a pouca louça, dando pequenos pulos de uma euforia inexplicável e de vez em vez tomando goles na lata de cerveja que deixara em cima da pia, ao seu lado, eu vejo a leve brutalidade que ela carrega por baixo de uma camisa social que me roubou há algum tempo atrás,  antiga e grande demais para ela mas que a deixava perfeita quando a vestia e andava pela casa.

Olhando para ela e ouvindo-a gritar as palavras de ordem desse punk-rock antigo, consigo sentir a rebeldia que corre por seus ossos e dentro das suas veias por baixo de sua pele fina e isso me faz bem, isso me faz sorrir...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Por que é proibído pisar na grama?

"Acordei com uma vontade de saber como eu ía e como ía meu mundo..."
Jorge Ben

Havia sonhado na noite passada. De fato, não lembrava os detalhes, recordava-se apenas de acordar sentindo a falta de algo.

Era uma garota, ainda lembrava-se de pedaços, de alguns sorrisos. Teve a absoluta certeza de que nunca tinha a conhecido antes, quando acordou, nem mesmo em sonhos. Talvez tenha a visto em algum vagão do metro, em algum bar conversando com as amigas ou em algum café lendo um livro velho qualquer. Não fazia tanta diferença. O que tinha certeza, é que gostava bastante dela, ao menos na confusão ludibriante daquele sonho. Tinha a certeza de que ela era o centro das suas atenções e que não precisava de um nome, estavam juntos, isso bastava.

Tinha as mãos finas e macias, lembrou-se de que segurou-as quase forte demais para senti-las. Dobrou-lhe os dedos e os pressionou com a palma de sua mão, desejando o estalar das articulações de suas falanges. Ela pressentiu a intenção e pediu lhe sorrindo para que não o fizesse. Tarde demais.

Foi fácil, mais do que imaginava. Os dedos não apresentaram nenhuma resistência à pressão, dobraram-se de leve e estalaram-se, um após o outro, em um movimento delicado, provocando um riso nervoso e íntimo nos dois. Ela era sua. Você tinha certeza disso.

Em um instante não havia mais vozes, apenas das outras pessoas, amigos coadjuvantes actuando no seu sonho. Ela era a única estranha, mas a única que importava-lhe. Lembrou-se depois de ter sentido seu cheiro, isso obrigou-lhe a render-se a lembrança que venceu suas pálpebras fechando-as de repente. Era o perfume que os anjos deviam ter. No mesmo instante, chegou a sentir o atrito dos lábios dela nos seus, das línguas libertando-se do céu da boca. Não se importaria em nunca mais acordar. Aquela estranha era a pessoa que mais parecia confiar em ti.

Acontece que os sonhos lhe proporcionam doses artificiais do que não consegue em sua vida de olhos abertos, pelo menos não o bastante. Então, levantou-se da cama com um vazio. Com a saudade do que você sabe que nunca teve, uma paixão involuntária por aquela garota que você não conhece, pelo tempo em que dividiram uma ilusão. Andou por algumas calçadas, cantarolando uma canção de Jorge Ben, gravada em 1976. De algum modo a música lhe permitia fatias de memórias. Ponderou por um tempo sobre o absurdo de ter se apaixonado por uma mulher de mentira, que visitou sua cama indiretamente, que lhe fez sentir - quimera - esta falsa felicidade com um toque, um encontro de bocas. Pensou em voltar a dormir, mas sabia que ela tinha ido e que talvez voltasse pra uma outra noite, talvez, qualquer dia desses.
Arrivederci!

"Preciso às vezes ser durão, pois eu sou muito sentimental, meu amor... Preciso de carinho, pois eu quero ser compreendido, preciso saber que dia e hora ela passa por aqui e se ela ainda gosta de mim..."
Jorge Ben

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A love supreme...

Ela senta-se ao meu lado, encostando seu braço no meu enquanto vira as páginas do livro de Caio Fernando Abreu que acabara de comprar, chamado Fragmentos. Por alguns instantes consigo ouvir o som que o resto do mundo faz quando ela se cala, mas em um piscar de olhos está ela falando novamente sobre algum conto chamado "Os sapatinhos vermelhos" ou "Paris não é uma festa".

Tanto faz...

Ontem meu time empatou e isso me importa mais agora do que as semelhanças e diferenças com Cecilia Meireles ou Gabriel Garcia Marquez, mas é disso que ela gosta. Torcemos para times diferentes, times rivais, pra ser mais claro. Ela interrompe sua retórica apenas para falar do absurdo que era o meu mal-humor por causa de um jogo, ainda falando sem tirar os olhos do livro que ainda cheira à papel novo.

Pra variar, eu não respondo. Levanto do sofá, desvio-me das pernas dela e vou até a cozinha. Um copo americano, quatro ou cinco goles de café, nenhuma colher de açúcar e vou para a janela da sala. Escolho um cigarro no maço, levo-o até os lábios e acendo-o. E ofereço-a a magnífica oportunidade de falar mal das minhas escolhas e atitudes, ainda sem me olhar.

"Ah...Se ela soubesse."

Não faço questão de discutir sobre qual dos dois tem razão, acredito que essas acusações são traços definitivos e irrefreáveis na personalidade dela, além de uma característica bem feminina. Vou até o rádio aumento o volume com a sorte de pegar "A love supreme" do Coltrane à tempo e viro-me e, de frente para ela, encaro-a como sempre faço e cada vez mais transformo isto em um hábito pós acusação. Ela me olha por cima do livro, com aquele sorriso de incredulidade, que rápido amarela-se e se transforma em uma indiferença rápida e quase discreta. Nunca se deixa perder tempo demais me olhando, obriga-se à distrair-se com qualquer coisa por perto.

De um verso para outro, seus lábios e dentes acabam cedendo à língua e cordas vocais, e depois de alguns momentos de sol e silêncio, ela traz de volta uma tempestade de palavras, agora largando o livro e voltando-se directamente para mim.

Quase sempre é a mesma história: Eu bebo demais, estou fumando muito, quase nunca falo sobre o que ela quer falar, que essas coisas acabam tirando o sono dela e que ela não sabe se eu sou a mesma pessoa que conheceu. Mas como poderia ser?
Engraçado é que ela não grita, como a maioria das outras costuma fazer. E logo põe-se de volta à sua serenidade comum e encantadora, rindo com seus dentes certos e brancos. Acaba logo com sua tempestade de verão.

No intervalo de três cigarros, vem até a janela e me abraça pelas costas, com as duas mãos no peito e com a cabeça encostada bem atrás do meu coração. Fica calada por cinco ou seis segundos.

- Eu te odeio, sabia? - Ela me pergunta num misto de riso e interrogação. - Eu te odeio.
- Sei - repliquei depressa. - foi a primeira coisa que soube quando te conheci!

Trago-a para minha frente deixando-a debruçada na janela e estendo-lhe o cigarro, que ela traga uma vez e me devolve. Eu penso que estaria disposto a morrer por ela à qualquer momento e por qualquer motivo, qualquer um. Mas também penso em como é bom estar vivo pra sentir o cheiro dos seus cabelos. Encosto o queixo no ombro dela que se retrai de leve com o espetar dos fios de barba.

- Eu também te odeio! - respondi devagar. - Odeio ainda mais  não conseguir te odiar mais ainda, Doce.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

alto-mar

Acontece que, por trás de uma nuvem néon, destaca-se uma parte de sol. Então vocês decidiram sair para dar uma volta, ela queria comprar alguma coisa, qualquer coisa que lhe fizesse gastar o resto do seu salário. Você só pensava em andar um pouco, fugir dessas paredes.
Ela logo se interessava por algo enquanto você a seguia pelos corredores de barracas, desviando vez ou outra de alguma criança correndo, esbarrando vez outra em algumas outras pessoas que resmungavam xingamentos pelo esbarro ou pela fumaça do cigarro enquanto você faz que não ouviu.
Você continua seguindo os passos dela por entre a praça lotada, mantendo uma distância que lhe oferece imunidade ao seu perfume mas por outro lado, aquela visão dela andando aos pulos, de estande à estande, experimentando doces e brincos baratos, vez ou outra colocando um anel no dedo anelar, parece queimar-lhe os olhos. O cheiro do lugar vai se transformando em uma feijoada de aromas: incenso, pipoca, amendoim, tinta óleo e pastéis, tudo isso misturado à maresia.
Você não morre de amores por ela, quase nunca presta atenção no que ela diz embora ouça, com um perceptível desprezo, o que ela tem à dizer sempre que ela coloca-se a sua frente. Ela gosta de você por isso. Não mostra nem surpresa quando ela parece saber do que fala, nem admiração quando ela começa seu monólogo à respeito da sua predilecção por Ella Fitzgerald à Billie Holiday. Você dá de ombros, afinal não morre de amores por ela.
Ela tem dois ou três anos à menos, estuda fisioterapia e estagia em uma clínica por meio período. Você não sabe se tem ou não ciúme de quando ela sai com os colegas do curso para beber, de quando aparece com um vestido ou decote um pouco mais curto, de quando troca mensagens na internet ou celular com outros rapazes, no final ela não é sua e, mesmo que quisesse, seria difícil fazê-la aceitar um compromisso à sua maneira.
Você gosta do sexo que fazem, de sua infantilidade. Gosta de quando ela geme baixinho, quando passa os dedos pelos seus cabelos. Às vezes, se flagra pensando no calor no meio dos seios dela, lembra-se dela saindo do banheiro só de roupa íntima e com a toalha enrolada na cabeça e, agora sim, se permite um sorriso de nostalgia. Ela continua andando em pulos à sua frente, agora com um algodão-doce nas mãos, olhando para trás e dando gargalhadas de menina, colocando punhados do doce na ponta da língua e deixando o açúcar dissolver por si só.
Ela gosta de quando você deixa a barba por fazer e não precisa dizer que ela gosta do seu jeito. Ela planeja um futuro para vocês dois, você não gosta mas não a impede de sonhar, você sempre deixa que ela fale, embora às vezes não responda e limite-se apenas a fazer suas conhecidas expressões manuais ou faciais. Ela não sente falta de uma resposta na maior parte do tempo, afinal ela quer mesmo que você escute, não que opine ou aconselhe e na verdade ela também não morre de amores por você.
Ela pára por um momento diante das escadas no final da praça e observa o contorno da orla da praia iluminada pelas luzes de postes, carros e prédios. Já é começo de noite, apenas um filete laranja de nuvem permanece no céu azul indigo. Você continua mantendo distância, agora parado, com o final de outro cigarro cuspindo restos de fumaça entre os dedos, observando-a de costas.
O vestido de flores e os cabelos acastanhados balançam na sinfonia de ventos que vêem do mar trazendo pequenas ondas de espuma e salpicando sua pele. Uma escuna passa devagar, bem perto, com o brilho de centenas de pequenas lâmpadas amarelas e vermelhas, ela se distrai com as luzes da embarcação e não percebe a sua aproximação.
Ela cruza os braços, esfregando-os com as mãos numa tentativa de diminuir um pouco o leve frio que o oceano traz. Você tira seu casaco e coloca sobre os ombros dela, assustando-a um pouco e acaba perguntando a si mesmo se aguentaria aqueles sorrisos dela, de lábios fechados e com o lado direito mais puxado que o esquerdo, espremendo de leve os olhos cor de mel que brilham com as luzes da escuna. Acaba perguntando-se quão é necessário ou se é mesmo preciso amar alguém para ficar junto dela. Talvez não tanto, talvez não muito, talvez não seja necessário ou preciso morrer de amores, pois este é seu jeito de amar.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Non Sense...

...Ela disse às seis, no mesmo café em que se viram da última vez. No entanto, o ponteiro do relógio acusava seis horas e quarenta e cinco minutos de atraso, café e idas até a calçada para fumar. A nova lei anti-fumo não chega a lhe incomodar, aliás, foi em um 'fumódromo' que você a conheceu e permaneceu ali mesmo depois de fumar, ouvindo ela dizer sobre "a merda que é um viciado" e aquele discurso bem ensaiado sobre parar de fumar.
Já começava a se acostumar com a idéia de que ela não viria, enquanto tragava os últimos goles do café frio que lhe sobrava na xícara. Você abre o jornal amarrotado, corre as linhas com os olhos, analisando apenas manchetes, filtrando frases até chegar à página dos quadrinhos e  palavras cruzadas e resolve decifrá-las. Chama a atenção de um garçom com um gesto, solicita mais uma xícara e uma caneta disponível qualquer, o rapaz prontamente assente trazendo, com estranha rapidez e cortesia, o café e a caneta.
Então põe-se aos obstáculos, não antes de ler os quadrinhos e sorrir unilateralmente com uma tira do célebre Charles Schulz, criador do 'Snoopy', em que os personagens Charlie Brown e Lucy se encontram em um diálogo sobre o futuro:

Charlie Brown: O futuro me assusta!
Lucy: Não vejo porque... Você é jovem, cheio de vida... Provavelmente vai viver por mais sessenta anos!
Charlie Brown: É isso que me assusta!

Eis que ao início das respostas, ela faz-se visível através do vidro da cafetaria, tentando vencer o vento e o frio que faz do lado de fora. Um senhor, de saída, faz absoluta questão de lhe dar passagem, não só por simpatia, mas também por uma oportunidade de tentar ver algo que escape aos agasalhos dela. Ela estica o pescoço, procurando sua mesa, enquanto se ajeita dentro do sobretudo e logo após esfrega as palmas das mãos afim de esquentar-las. Encontra então a mesa em que você a esperou por cinquenta e sete minutos.
Põe-se a murmurar algumas desculpas sobre o trânsito, o frio e qualquer outra coisa. Você contenta-se em uma espiada por cima dos óculos, erguendo uma sobrancelha em sinal de indiferença.
Então, como a sirene de uma ambulância em busca de um acidentado, ela começa a falar de tudo, querendo dizer nada. Mal respirando entre as pausas quase inexistentes, atropelando o que dizia para pedir um macchiato, bebida que há pouco conhecera e a qual se declara imensa apreciadora. Ela freia a língua por um instante e depois de perceber-lhe atento ao temporário desafio de encontrar as definições das palavras, resolve te perguntar o que havia acontecido.
Com a mesma indiferença de antes, você sussurra uma resposta qualquer, o que sempre a deixou revoltada. Volta a olhar ao redor e, como se fosse possível mudar de humor em um segundo, pergunta se podem conversar do lado de fora para que possam fumar enquanto falam, ela aceita relutante, resmungando novamente sobre o frio que faz hoje... Do lado de fora, perto da esquina da Haddock Lobo com a Avenida Paulista, pode-se ver as luzes dos prédios, antenas e carros. Você encara os olhos dela por um tempo enquanto ela tenta saber o que aconteceu...

 "por quê você está tão diferente?".

Teria mesmo algo fora do lugar? Teria mesmo algo acontecido? Qual é a necessidade de saber tudo ou como as pessoas se sentem? Não seria mais fácil aceitar que algumas pessoas não sentem a mesma necessidade de falar sobre tudo que dá errado ou apenas não dá certo? Certamente não parecia tão simples para ela. Ela era do tipo que fazia de tudo para te deixar louco, para que ela não parecesse tão fora de si. Certa vez, você teve a brilhante idéia de discutir sobre argumentação, assunto qual ela nunca deu o braço a torcer e por mais que você não admitisse ou tentasse negar, no fundo sabia que ela era uma grande argumentadora, possivelmente uma argumentadora involuntária. No entanto, faltava-lhe a noção básica de que não era necessário mostrar que estava certa para argumentar, mas sim que os outros estavam errados...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

15/02/2008 - 10/11/2010 O sexo do calendário...


Não é mais possível descobrir o que está errado talvez porque tudo esteja. Novamente, sua mente lhe prega peças. Gritos no silêncio noturno: o velho som da calamidade, o expresso para o inferno chegando quando você está amarrado nos trilhos.

Você sente. Como um sussurro planando na atmosfera dos ouvidos. Você se sente como um inseto dentro de um vaso sanitário. Seu futuro é uma eterna e escorregadia descida e alguém pode despejar algo, um tanto quanto desagradável, a qualquer momento.

“Foi bom pra você?”

Você vê a luz e luta para sair. A salvação está logo adiante e quando se consegue alguns momentos de alívio, alguém dá a descarga. É tão típico... Você se afoga em um mar. Um mar de medo, ódio e frustração.

“Aja como se estivesse tudo bem!”

Se você parasse para admitir talvez as coisas ficassem mais fáceis, mas você está muito ocupado tentando manter a cabeça fora da água. Enquanto o seu pequeno bote de emergência afunda rapidamente. O único jeito de flutuar é tapando os buracos com explicações ridículas e torcer para não ser levado pelas ondas de culpa. Nadando em círculos, voltando ao mesmo drama.
“Parece que você se perdeu, marinheiro!”

Ora, ora... Que magnífico dia para morrer. Apenas outro dia, transando com o calendário. Às vezes, a pressão momentânea é sufocante, é como se você se persuadisse a agir
 
Ah... O desespero fluindo nas veias. O desalento do corpo frio e o cansaço em contraste com a adrenalina, a emocionante colisão com o perigo.

“Esqueça, meu amigo. Vá dormir!”

Você precisa de alguns tragos e goles. Você precisa do doce toque cancerígeno e fatal, dos lábios dela.

[Elementar, meu caro. Elementar.]

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

21/07/08 - 08/11/10

É a sua vez, então você beija sua mão fechada e gira os dados por entre seus dedos em chamas. Você imagina, talvez seja mais que imaginação, na verdade, você tenta manipular o destino. Dá uma ultima tragada no seu cigarro, enquanto todos os olhos te golpeiam. Fecha os olhos e sente os dados pegarem fogo como um palito de fósforo aceso dentro da sua mão.

Você está realmente pronto pra ganhar? Sabe qual o preço a pagar se não estiver? Você sabe, sabe muito bem disso. Mas não é o que te importa agora, certo? Você joga os dados e apenas assiste o destino acontecendo bem na sua frente e é como presenciar um milagre. Mas agora tudo o que você pode fazer é esperar. Esperar e sussurrar o seu número da sorte: Sete! Um “três” e um “quatro”. Sete, você precisa apenas de um maldito sete, que o maldito três e o maldito quatro fiquem para cima para que você possa beber seu uísque, feliz!

O dado cai e colide contra o tecido verde da mesa, volta ao ar, rodopia e colide outra vez, volta à mesa e resolve ficar nela desta vez, suavemente, como se dormisse no veludo. A atmosfera em volta da mesa te sufoca. Homens de gravatas italianas com garotas vinte anos mais jovens no colo, bebem Bourbon, fumam cigarrilhas e pagam Martinis e Cosmopolytans para as moças. Mas todos permanecem atentos, como se pudessem mudar os resultados.

É quando a sorte invade o salão, bebendo cerveja, pois não liga se parece vulgar ou não. Vulgar é viver de mascara, fingindo moralidade e integridade deixando mulheres e filhos em casa pra ir ao puteiro pra se sentir capaz, homem ou algo que o valha. A sorte então senta-se ao seu lado e coloca em sua mão, mais do que uma oportunidade, mas sim uma escolha. Não se engane, você tem sim uma escolha, ou tinha. Mas com absoluta certeza teria se tivesse escutado a voz dela em seu ouvido. Agora é só você e o destino, você e os olhares dos donos da verdade. Agora é só você, apostando até o que você não tem pra tentar ganhar o que disseram que você precisa.

André Rossetto.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Soneto à solidão

Proibiste que a minha voz saísse
Como se pudesse me emudecer
Como se pudesse me ensurdecer
Evitaste, ainda que eu te ouvisse

Negaste-me o teu pouco veneno
E recusaste-me esta tua doença
Envolveste-me com a tua dança.
Enganaste-me com olhar sereno

Foste além de onde o céu é mar
De onde esta culpa é absolvição
Bem de onde este silêncio é voz.

Chegaste onde não dá pra voltar
Pra entender que a nossa solidão
É ruim demais para seguir à sós.

André Rossetto

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Tudo estava calmo...

...Calmo como uma manhã de domingo, com um sol de outono e o vento gelado derrubando as poucas folhas secas que se seguravam nas árvores. O gosto do café se misturando com o gosto do creme dental, aos poucos dominando as papilas gustativas com sua amargura. Um fio de fumaça azulada sobe por entre os dedos que seguram o cigarro, enquanto expulso a núvem de tabaco e alcatrão dos pulmões.
Ouço os passos dela, distantes, andando na ponta dos pés, seguidos pela sinfonia de violinos que se fazem ouvir quando ela passa pelas calçadas dessa cidade. Já posso sentir o cheiro dos cabelos e da pele recém lavada. Sinto o cheiro da sua respiração, do seu vestido, o cheiro da sua presença.
De repente, posso tocá-la com as costas das mãos. Posso tocar em seu rosto com a ponta dos dedos e vê-los deslizarem, devagar, por entre os olhos fechados e a pequena curva do nariz até chegar à boca sem batom e ao queixo delicado.
Posso sentir o gosto de álcool de seu perfume. Sinto o gosto da inocência perigosa e esperta que ela tem. Pareço poder sentir o gosto desse instante, rolando entre a língua, explodindo como fogos de artifício no céu da minha boca. Sinto o gosto da maçã de seu rosto quando à mordo, o gosto doce de tê-la por perto, sinto o gosto de imaginar qual deve ser seu gosto.
Então, posso vê-la cruzando a esquina, atravessando a rua e destacando-se no meio desse universo cinza, como a garotinha de vestido vermelho de A Lista de Schindler, parecendo não se importar ou não perceber o caos ao redor, talvez por conta do som dos violinos que tocam de acordo com a órbita de seus quadris. Posso vê-la, chegando sob um céu de Monet, de um modo misterioso e imprevisível, como um acidente prestes a acontecer.
Posso sentir a sensação de me perder nas cores de seus olhos, perder a direção em suas curvas, perder o juízo, perder o fôlego. Posso sentir a sensação de me jogar, em queda livre, neste abismo que ela é. Um abismo de um metro e sessenta e seis. É isso o que ela é: um abismo, uma fronteira, uma armadilha com seus lábios de arame farpado.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Embriagues de sobriedade

Então, aprendemos a andar juntos, através de mudanças de comportamentos e assuntos. Sob uma tempestade de inveja e insultos, ensaiamos mentiras, algumas vezes inacreditáveis, outras vezes bons argumentos.

Depois aprendemos a buscar e fugir da luta, admirar ou impedir a força bruta, ignorando, vez ou outra as afrontas e insolências de qualquer filho da puta. Nos impregnamos dessa covardia, como se fosse a unica conduta.

Talvez, tenhamos sido enganados. Quem sabe abençoados? Podemos ter que admitir que agora somos arrogantes e mal acostumados, mas isso não passa tão perto de um pecado, seriamos absolvidos ou abandonados.

É claro, chegaremos até onde for possível, nos habituamos ao que é aceitável e nos torturaremos com o que for inesquecível, pois nossa sede é insaciável e nossa cobiça é desprezível. É tudo tão incomensurável, que o defino como incrível.

Por fim, só resta o suplício. A emoção do ócio colidindo-se contra os muros deste vício. Toda a certeza do final vem do receio de um início. Quando as luzes se apagam eu me calo, pois entre entre o som e a palavra eu prefiro o silêncio.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

De volta...

Gosto da estrada, da emoção da partida, das paradas no acostamento, dos desenhos e defeitos no vidro que me impedem a vista completa das cidades e vilas que passam. Gosto da insegurança, da possibilidade e da alta probabilidade de algo acabar dando errado.
Gosto do barulho do motor, a pressão da frenagem e até mesmo do cinto de segurança. Gosto quando as luzes se apagam do lado de dentro, fazendo da janela um grande quadro, que se move e muda cada vez mais a cada quilometro, como um filme, seguindo uma sequência, um roteiro que talvez nós ja saibamos onde vai chegar, mas que quando visto novamente se parece parcialmente novo e tão surpreendente como da primeira vez. 
Se por acaso me sento na poltrona do corredor, me estico um pouco pra conseguir ver através da janela e me espremo o bastante para os outros passarem pela estreita trilha que corta o automóvel. O conselho é quase sempre o mesmo: "escolha sempre um lugar no lado do motorista". Conselho este que sempre pensei ser um absurdo, sendo que, se por um descuido da sorte um acidente acontecer, não seria muito lógico tentar controlá-lo, mesmo porque nunca se sabe de que lado ele acontecerá, se é que existe um lado especial pra acidentes acontecerem.
Gosto do ar condicionado, secando e irritando a garganta e as narinas. Gosto das duas lâmpadas na parte de baixo do bagageiro superior, muito úteis nas horas de leitura e das cortinas raramente usadas nas raras horas de sono. Gosto das casas na beira da estrada, de imaginar como deve ser viver ali, nas artérias da terra. E, é claro, tenho todo um carinho especial pelas pontes, das mais simples e perigosas até as mais bonitas e modernas. Gosto muito também dos túneis, do barulho abafado, da luz alaranjada e do alívio ao ver a luz do dia ou o breu da noite no final. Gosto da escuridão sendo interrompida, por segundos, pelas luzes de qualquer posto de combustível saturado de caminhões estacionados perto de restaurantes, lachonetes ou motéis próximos.
Gosto das curvas, das retas, das descidas e subidas. Gosto de viajar de tarde, de manhã, mas prefiro a noite. Gosto de viajar sozinho, com alguém ou com muitos. Gosto de reclinar o banco e olhar pra fora. Olhar pra fora de mim, do meu mundo, dos meus hábitos e rotinas. Gosto de ver quem há muito não vejo e conhecer pessoas das quais nunca imaginei a existência, ir a lugares novos ou até mesmo aos antigos dos quais senti saudade. Gosto de partir, mas gosto mesmo é de voltar. Pra casa. Gosto mesmo é do abraço de boas vindas e do beijo de saudade. Gosto de saber o que aconteceu enquanto eu estava fora e imaginar o que vai acontecer agora que voltei. Gosto do cheiro daqui e das cores que tudo tem aqui. Gosto do gosto disso tudo.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Graça

"Sim, é claro, o amor é uma graça. Nos faz tão mal e tão bem, mais do que qualquer outra coisa nos faça. Nas músicas, nas artes ou em qualquer papel que se amassa. Amor. Luminoso e irresistível como uma lâmpada em meio às traças. O amor que tu procuras e em seguida te afastas, tu foges pelas ruas, desvias dos defeitos das calçadas, por entre prédios, parques e praças. O amor, dono da vontade da entrega e o prazer das ameaças. Aquilo que você não gosta, mas que se abraça. Aquilo que você tem medo, mas sempre vai à caça. Aquilo que vem e vai, mas nunca passa."

André Rossetto

"Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo directamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira..."

Pablo Neruda

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Há pouco tempo atrás...

...o assunto era o medo, de perder, de ganhar, de tentar e falhar ou desistir e se arrepender. Hoje quero falar sobre o que deveriamos fazer ou deveriamos ter feito. De tudo que nos traz medo, todo o cuidado e o que repelimos, a única parte de que não deveriamos nos separar ou esquecer é de como era amar, de como conseguir isso de novo, de como criar isso a partir de um futuro sem garantias.
As vezes penso que nosso único erro é se defender demais, se blindar de tudo, não ter coragem de sentir o que sempre se quis. Falo porque sei, não porque me disseram, mas sim por isso ter acontecido comigo também. Todo esse medo, do futuro instável, do destino imprevisível, de não saber se devemos dar o próximo passo ou não. Eu já passei por isso e perdi muito por isso.
Admiro o senso de proteção natural que envolve algumas pessoas, mas quando paro pra pensar em segurança e estabilidade, me lembro de repente de quando eu era feliz, bem feliz, e corria pra longe de toda e qualquer garantia de que tudo seria certo e feito sob medida para as minhas necessidades e realizações.
Uma época em que tudo se parecia com uma queda livre, mas que eu não me preocupava se o pára-quedas abriria ou não, apenas admirava o momento, com a certeza de que ele não voltaria por mais que outros saltos viessem em seguida, mas também com a certeza de que outros saltos seriam tão bons quanto os anteriores e que se um dia eu chegasse ao chão antes de o pára-quedas se abrir teria, mesmo assim,  valido a pena os momentos de dúvida e incerteza que tive, mas nunca os momentos de hesito.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Como uma pedra...

...sim, ela sempre foi como uma pedra, no leito de um rio, no meio da estrada, talvez até estilhaçando alguma vidraça. Tão sólida, tão bruta no explendor de suas poucas cores. Foi como uma rocha, a Rolling Stone, despencando de qualquer abismo, deixando pequenos pedaços de si por onde esbarrava, deixando marcas por onde passava e levando consigo fragmentos do que atingia.
Ela sempre foi como uma pedra, preciosa ou não, mas sempre uma pedra que ainda não foi lapidada e talvez nunca será. Aquela pedra no leito de um rio, que tudo suporta, que às vezes é carregada pela correnteza, mas logo encontra outro lugar para se fixar.
A pedra que todos admiraram de longe e acabaram se despedaçando contra ela por chegarem perto demais. A pedra no meio do caminho, que alguns se desviaram temendo os riscos. A pedra que alguns chutaram, desprezando seu hipotético valor. A pedra em que alguns tropeçaram, não percebendo seus perigos ou não confiando-lhe a definição de obstáculo.
Sempre como uma pedra, estilhaçando vidraças. Sendo lançada contra algo e, consequentemente, sendo atingida de volta, incontáveis vezes, como se fosse feita pra isso. Como se essa fosse sua importância, seu sinônimo. A pedra fundamental, a pedra na qual alguém sentou-se para descansar e admirar a vista. A pedra que alguém colocou em um anel, a pedra que todos ignoraram e acabaram esmagados por seu peso, a qual todos julgaram-se mais sólidos. A pedra que suporta, que tudo aguenta e tudo sustenta, porque foi feita pra isso. Suportar a pressão e manter-se em seu lugar.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Logo eu...

...Que sempre me achei tão esperto, tão inovador, versátil e a frente do meu tempo. Logo eu, que sempre me achei tão capaz e obstinado, que sempre achei saber o que precisava saber, transformando essa arrogância, essa prepotencia, em um lifestyle absoluto. Como se tivesse certeza do que eu queria ser, do que iria me tornar e do que a vida me reservaria.
Logo eu, que sempre pareci tão seguro de mim mesmo, tão confiante a respeito do suposto talento que eu tenho, tão faminto por novos horizontes e novas possibilidades. Logo eu que tratei e destratei, a tudo e a todos, do modo que melhor me convinha. Com tanta pose, tantos discursos bonitos, tantas opiniões. Logo eu que escrevia músicas tão boas pra mim mesmo, desenhei tão bem sem nunca ter estudado, argumentava tão bem sobre qual fosse o assunto na mesa.
Eu que sempre me achei esperto o suficiente para me destacar, sem precisar passar a perna em ninguém. Eu que sempre acreditei no dom que imaginava ter, acreditei na tendencia a ser o centro de conversas sobre pessoas sensatas e inteligentes. Eu mesmo, que acreditava, duvidei, acusei e apontei o dedo, voltei a acreditar. Eu que voltei atrás e me arrependi, entrei em contradição e menti tantas vezes pra sustentar o castelo de aparencias e continuar atuando nesse eterno teatro de marionetes, criando o roteiro que mais impressionasse, com as melhores caras e bocas que minhas qualidades cenicas permitiam.
Logo eu, tão admirado, ou nem tanto assim, mas pelo menos percebido. Logo eu...
...Me vi tão atrasado, contente com o avanço dos outros, mas tão decepcionado. Não me vi invejando o sucesso de ninguém ou mal dizendo suas conquistas e realizações, mas sim cobrando alguma atitude genuina, que realmente partisse de mim, que me trouxesse algo, material, espiritual, substancial e não mais artificial. Pois cansei das aparencias, de como ter que parecer ou agir. Cansei dessa cartilha, desse manual que eu mesmo ajudei a escrever e definir como plano de voo.
É engraçado, pensar em descer da pratileira de troféis, descer um degrau dessa escada feita de ego. É comico sentir-se bem sozinho, sem ninguém que consiga me atrasar e que eu consiga decepcionar. É bom respirar o mesmo ar, seguir o senso comum e escapar dos meus próprios moldes, feitos sob medida para o tamanho da minha fantasia e imaginação. É bom se sentir tão pouco e nem ser tão percebido, não ter o nome pronunciado e nem ser tão importante pra alguém. É bom poder descansar e pensar algo a respeito de mim mesmo, poder me criticar e me elogiar. Conseguir ficar mais comigo, do que maquiar a realidade ficando com alguém, como uma muleta, uma ponte que imaginamos ser sustentada por outra pessoa. É bom não ter o mundo seguro pelas mãos de Atlas, é bom não ter que lutar contra o sol pelo centro do universo.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A minha inveja...

...sempre foi dos surfistas e tenho dito! Os Rockstars e os bilionários que me desculpem, mas creio fielmente que os que chegam mais perto de decifrar o sinônimo de vida são eles. Sempre invejei a calma e o controle, a arte de dominar algo tão bruto, tão natural e inconstante.
 Os filósofos e poetas que entendam, vocês ficaram tanto tempo pensando e criando seus próprios universos. para que pudessem realizar suas aventuras. Enquanto isso, pessoas mais simples resolveram se aventurar nesse mundo comum e criar uma grande forma de paz e ligação.
 Os cientistam contestarão, mas terão que concordar que enquanto estabeleciam limites e impossibilidades, os surfistas estão entre ondas maiores que as casas em que moram. Enquanto vocês se concentram em tubos de ensaios, eles estão dentro de tubos d'água, dos quais, sempre sonhei em estar.
Os outros esportistas, ou até mesmo os sedentários, que tentem estabelecer algo similar com a arte de andar sobre os oceanos, amar o que faz e passar esta paixão para as suas próximas gerações.
 E os outros mortais, que aprendam como estabelecer esta ponte, feita de fibra e parafina, com o corpo e a alma. A conexão entre o homem e o ambiente.
Deus abençoe os surfistas...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O que poderia ter sido melhor?

O que poderia ter sido diferente? Tudo? Apenas a metade ou alguns poucos momentos, decisões e resultados? Teria sido melhor se tivessemos lido todas as regras do contrato, mesmo aquelas escritas com letras pequenas, no rodapé, seguidas de asteríscos?
Talvez teria sido melhor se tivessemos um pouco mais de medo. Não responsabilidade, nem paciência, tampouco moderação. Medo!
Medo de meter os pés pelas mãos, o medo de acabar tomando a atitude que você nem mesmo queria, o medo de conquistar o que você nunca desejou. O medo que é maior do que o medo de perder a vida, o medo de desperdiça-la, de gastar-la como um simples palito de fósforo. Não vos aconselho a temer a vida, muito menos temer a morte.  O que posso aconselhar é que temam o tamanho e a força das suas escolhas, que tenham medo do que podem conseguir e que respeitem as consequências dos atos que, bem pensados ou não, são de sua responsabilidade. Tenha medo, isso pode salvar sua vida um dia.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

...Ocasionalmente!

O acaso é, realmente, intrigante e surpreendente. A extraordinária capacidade que todas as coisas possuem de virar de pernas pro ar, em questão de minutos. É tudo tão fascinante! O modo em que ignoramos as regras, não recebemos os avisos, esquecemos dos cuidados e insistimos em arriscar, em apostar até o que não temos no que cremos ser o que sempre sonhamos ou apenas a alternativa mais providencial.
O acaso é, realmente, imparcial e imprevisível. A incrível mudança de comportamento que o tempo nos leva a cultivar. E nós acabamos habituados com a frequência da quebra da rotina, mas nunca nos acostumamos com a sensação desse rompimento de universos, de dimensões. Assim como a primeira reação da vida, ao ser retirada de sua primeira rotina, do seu primeiro universo, é o choro. A lágrima pura, vinda da primeira vez em que enchemos o pulmão de ar, vinda da lâmina que nos separa do plural, nos colocando de vez no singular.
O acaso, em sua maior parte, nos leva a crer que tudo está acontecendo lá fora e que tudo parece muito terrível e perigoso, mas que não é tão ruim enquanto não acontece com você. Ou será que nós queremos acreditar nisso? Que "não é porque aconteceu com ele que vai acontecer comigo". Esse instinto falho de segurança, essa confiança cega de que nada vai acontecer, afinal, as coisas acontecem com as outras pessoas, que vimos na televisão, em diversos canais revezando as tragédias diárias. No final o acaso está esperando, pra colocar a sua vida em um liquidificador ou quem sabe em uma montanha-russa. O acaso é um milagre, uma doce maldição. O acaso é o dedo de quem aponta os erros que acabará cometendo, talvez até pior. O acaso é um acidente esperando para acontecer.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

...

Lá fora, em algum lugar, o dia nasce e em outro lugar a noite cái. Lá fora, em algum lugar, alguém pede aos céus um pouco de chuva, como se a esperança caisse em gotas, e em outro lugar alguém implora que a água pare de cair e levar tudo consigo.
Lá fora, o amor passeia de mãos dadas com o ódio pela mesma calçada em que vem a paz e a guerra. Mas eu...
...Eu quero ficar aqui!
Lá fora, existe a fome, a miséria e a violência. Nesse momento alguém está nascendo no mesmo canto da cidade em que alguém está morrendo. Lá fora, pessoas trabalham, ou não. Pessoas são roubadas e enganadas. Lá fora existem garotos e garotas perdendo a virgindade e senhores e senhoras perdendo a vontade, se é que vocês me entendem. Mas eu...
...Eu vou continuar aqui!
Lá fora, alguém vê o amor chegando ao mesmo porto em que alguém viu ele partindo. Lá fora, as pessoas estão se matando por chamarem um mesmo Deus por nomes diferentes. Lá fora, alguem que está chorando procura um bom motivo pra viver sorrindo. Lá fora, alguém está doente, de uma doença sem cura, que pouco se sabe à respeito. Alguém também se cura do mal que outro alguém tenha lhe feito. Mas eu...
...Eu vou ficar aqui, assistindo você dormir. Me esquecer que há vida fora desse quarto, esquecer do que eu já te escrevi ou das grosserias que já te falei. Eu só preciso te ver deitada, com o seu cheiro dominando o quarto, eu preciso ouvir sua respiração como uma sinfonia. Eu...
...Preciso ter dar meu coração e deixar você parti-lo.

Parole in bianco e nero...

São sempre as mesmas... As mesmas voltas que o mundo insiste em repetir, o mesmo ponteiro girando ao mesmo tempo.
São sempre as mesmas esquinas que viramos, as mesmas linhas que evitamos pisar, as mesmas pessoas que encontramos e não lembramos. É sempre a mesma velha história, a mesma vontade. Sempre os mesmos vícios.
As mesmas bocas que nós beijamos, os corações que partimos, sempre os mesmos planos que criamos, os milagres que não vimos. Sempre as mesmas invenções, as mesmas novidades, a mesma velha rotina maldita. Ainda somos as mesmas pessoas que nos tornamos para não mais ser os mesmos. Você sente o mesmo ódio que sentimos, você chega ao mesmo tempo em que voltamos e se vai do mesmo porto de que partimos. Somos os mesmos homens que éramos, mudaram as cavernas em que vivemos.
Então criamos tudo que já foi criado para tornar tudo mais ágil e simples, mas continuamos vivendo com a mesma pressa. Ainda ouvimos as mesmas músicas, assistimos os mesmos filmes, contamos as mesmas piadas e elegemos os mesmos politicos. Nós ainda escrevemos, mesmo por que, precisamos ler as mesmas palavras... Palavras em branco e preto.

Vivendo e não aprendendo...

Andei cansado por um tempo, depois desse tempo em que eu cansei de andar. Disseram que seria bom pra pensar, que as coisas ficam um pouco mais tragáveis. Andar... Andar até algum lugar onde o ar não pese tanto, onde eu possa parar e descançar um pouco. Andar pra sentir as articulações enferrujadas reclamarem e os ligamentos darem um nó. E a cada parada os músculos queimarem e expirar, expulsar o fogo dos pulmões.
Ai sim, acender um cigarro e sentar na beira da estrada, nenhum carro, ninguém por perto, nenhum ruído que não seja o do vento correndo por entre o labirinto de folhas nas árvores ao redor e o estalo do papel que se queima a cada trago. É quando você percebe que essa caminhada não te fez pensar e que era exatamente disso que você precisava. Prestar atenção nas coisas que passam sem grandes expectativas, nada de extraordinário e no entanto inacreditavelmente encantador. É uma questão de sintonia, consigo e o ambiente que lhe cerca. É uma questão de não procurar definições polidas ou soluções filosóficas. A definição é simples: É foda!