"Não me roube a solidão sem antes me oferecer verdadeira companhia."


Friedrich Nietzsche



terça-feira, 31 de julho de 2012

A sete palmos.


   Como definir um sentimento? Dizendo? Escrevendo? Com gestos? Na minha cabeça isso não faz sentido. Quem provaria a autenticidade dessas palavras ditas, escritas ou interpretadas?
Qual é a importância de saber o que é verdade e o que não é? O importante deveria ser o sentir, não provar se é real. Às vezes, mentiras são verdades, melhores conduzidas, melhores adaptadas.
Verdade é uma maldição, uma filosofia criada por diplomatas bem criados, bons maridos e cidadãos, ávidos para foder, cafajestes e adúlteros, comedores de esposas sem-vergonha. Verdade foi criada para foder os homens, quem fala a verdade se fode e não me falem sobre a honra da sinceridade. A honra da sinceridade é a maior mentira já inventada, esqueçam a gloriosa hipocrisia escondida por trás de seus dentes brilhantes. Continuem criando e vivendo suas mentiras, elas vão dizer quem você é, pois uma mentira contada muitas vezes se torna verdade.

   Eu vejo-a entrar, com seus cabelos vermelhos, pegando fogo. Vestida em um azul celeste simples. Sua pele alva, refletindo uma luz ofuscante, as mesmas mãos pequenas, de criança, as unhas bem feitas e pintadas, como sempre, em um esmalte claro. Por um instante, espero que ela não me veja sozinho, sentado no balcão. Espero que ela desista, que procure e veja um miserável de costas e vá embora.
Escondo o rosto, dou outro gole seco na cerveja quente, mas é inevitável não vê-la chegar. É irresistível o movimento de suas pernas, suas coxas insinuantes sob o vestido quase curto. Finalmente ela me nota, com um sorriso discreto de Monalisa no rosto, caminha em meio aos lobos, tão famintos por ela quanto eu. Eles a devoram com os olhos, podem sentir o gosto de sua pele ou de seu seio na língua.
Ela não se desfaz, continua. Sinto meu coração batendo na velocidades dos seus passos, lembro-me de como adoro o formato de seus pés e de como eles ficam lindos de qualquer modo. Escalo seu corpo, percorro milimetricamente cada detalhe. “Ela é um anjo”, sussurro comigo mesmo. Nesse momento, a cerveja rasga minha garganta, como se tivesse a faringe sendo corroída por soda caustica.

-Você está diferente...
-Achei que você não viria.
-Você me ligou, não ligou? Porque não viria?

Porque talvez eu não valha seu tempo? Porque fui ou continuo sendo um filho-da-puta? É claro que ela viria, sempre gostou de me ver miserável, sempre gostou de ser a Madre Theresa cuidando de pobres diabos.

-Você está certa, não há motivos pra não nos vermos, casualmente.
-Casualmente? Escuta, querido... nós... Nós não somos amigos, pode ser que nunca conseguiremos ser.
-Não estou te pedindo nada, estou? Muito menos amizade.

Amizade... Pro inferno com a amizade! Ela ainda brinca comigo, mesmo depois de tanto tempo, desde a ultima vez que a vi, ostentando seu sorriso diabólico.

-Demorei? Está a muito tempo me esperando?
-Dois anos... Dois anos e uns vinte e cinco minutos.
-Não começa. Já falamos sobre isso, milhares de vezes, nós sabemos o que acontece quando levamos isso adiante.
-Nós sabemos? A gente não sabe de porra nenhuma! Nunca sabemos o que acontece.
-Seja sincero, diga a verdade pelo menos hoje.
-Verdade? Não sei o que isso significa. Minha vida é feita de mentiras. Amor de mentira, amigos de mentira,  trabalho de mentira.
-Você continua sendo o mesmo paranoico, doente.
-É, eu continuo sim! Um fodido de um doente! É o que eu sou!
-Cala a boca! Sério, o que tem feito?

“Dissimular”:
1. Fingir que não vê, não ouve ou não sente.
2. Suprimir a aparência de (o que se quer ocultar)
3. Deixar passar; fazer vista grossa sobre.

Galinha falsa. É a mesma... Uma galinha dissimulada. Muda de assunto como muda de calcinha. Como uma prostituta barata, que muda da negociação para os gemidos em um piscar de olhos, e muda dos gemidos para a cobrança mais rápido ainda, quando sua meia hora chega ao fim.

-Não tenho feito nada, digo... Nada além do habitual. O mesmo trabalho, as mesmas dívidas. Só os bares mudam.
-Os bares e as mulheres que você se mete.
-As mulheres não fazem diferença, são todas iguais, mudam os nomes, os números, o preço.
-Você deveria se cuidar, parar de fumar, beber menos, arrumar uma boa pessoa...
-Ahh vá se foder! Você se acha melhor? Você superou melhor o que aconteceu? Você continua ridícula por trás dessa máscara, desse batom... Vou fumar um cigarro lá fora, vem.

Viro e sinto-me apunhalado. Ela não está melhor que eu! Não pode estar. Passamos pela mesma estrada... Ela não pode estar melhor.

-Tá com frio?
-Sua grosseria é inacreditável... Inacre...
-Tá bom, esquece.
-Esquece? Esquece? Já esqueci... Esqueci há dois anos!
-Esqueceu o caralho! Você não esqueceu porra nenhuma! Você tentou, fugiu, tentou se distrair com outro, mas não esqueceu nada!

Outro? Dois anos. Quantos? Quem? Não aguentaria saber... Mas sinto que me confortaria... Sem nomes, apenas números. Quantos? Será que ela gemeu com eles como gemia para mim?

-Você tá certo. Me distraí. Precisei saber o que existia além de você. Precisava de alguém pra me fazer te esquecer. Esquecer as suas mentiras bem contadas.
-Certo... O que você precisava era dar.
-Também! Já que tocou nesse assunto, me diz, quantas foram?
-Quantas o que?
-Quantas? Quantas você comeu quando tava comigo? Quantas putinhas abriram as perninhas?

Devo falar das duas amigas dela? Faria diferença duas conhecidas entre quinze ou vinte outras desconhecidas?

-Quinze. Foram quinze.
-Eu não acredito! Quinze cadelas... E eu no seu jogo, acreditando no seu amor de merda.

Onde devemos encaixar o amor nessa história? Porque sempre alguém toca nisso? Como se mostra o amor? O que acaba com o amor?

-O que eu sentia por você estava acima da verdade e da mentira.
-Sentia?
-Sentia... Sinto. O que é o certo e o que é o errado?
-Não me importa mais. Na verdade, não preciso mais perder tempo com essa pergunta.
-Você cobra meu amor, mas enterra o seu. Questiona minha sinceridade, mas omite a sua. Se não é sincera, seja corajosa, diga que não me ama.

Ela abre os lábios, se preparando, mas engole as palavras e esquiva. Procura o que dizer, no meio dessa guerra. Sabe que tem mais a dizer do que a cobrar.

-Ainda tá com ele?
-Sim... Na verdade faz um ano. Um ano e três meses.
-Você o ama?
-Não é da sua conta. Sei que gosta de se sentir miserável. Peça a outra pessoa para te humilhar.
-Você faz o que fazia comigo? Chupa ele da mesma forma? Faz a mesma cara de puta?
-Você é podre!

Eu sou podre... Ela é um anjo. Ela é feita de pureza infinita. A cadela mais pura. No meio da maior sacanagem, ela parecia ser uma santa. Uma santa gemendo, gritando... Pedindo, implorando para ser fodida. Uma putinha com asas e uma auréola brilhante. Gritando “Me bate!”. E depois de tudo acendia um cigarro, não tinha o hábito de fumar diariamente, mas deitada nua, encostada no meu peito, acendia dois cigarros e me passava um. Sentia o gosto da sua boca, do seu hálito. Eu transava com outras, mas eram insignificantes, inotáveis. Ela não. Ela era minha vida!

-Você é um anjo.
-Esquece... Eu vou embora.
-Você não precisa ir agora.
-Disse que não voltaria tarde.
-Entendi... O bonitinho te deu horas pra voltar. Disse pra ele aonde viria?
-Disse que iria beber com uma amiga que terminou com o namorado.
-Quem diria... Mentindo para o homem que você ama. Verdade não vale nada.
-Não menti pra ele...
-Não? Não me lembro de ser mulher, sua amiga eu sei que não sou, sem contar que a última pessoa com quem eu terminei, foi você.
-É diferente. Ele tem ciúme de você.
-Ciúme? Seria trágico se não fosse cômico.
-Quer saber? Eu sinto pena de você. Você se acha melhor que ele, mas eu achei nele o que procurei em você. Ele me ouve, não importa o que eu diga. Você é baixo, sente inveja. Tenho certeza que imagina ele me comendo. Tenho certeza que imagina eu arranhando as costas dele e não a sua, chupando ele e não você. Você pensa em mim, sendo comida por ele, mas olhando pra você.

Desgraçada. Ela entra na minha cabeça. Ela diz como se soubesse exatamente tudo o que eu penso. Como se o que eu imaginasse fosse tão nítido que ela pudesse ver escrito no meu rosto.
Ela disse o que no fundo era o que eu queria ouvir. Ela disse calma, sem raiva, sem ressentimento. Ela foi sincera. Ela descobriu o que eu pensava o tempo todo. Aquele maldito. Aquele filho-da-puta sugando seus mamilos, lambendo seu corpo. Aquele filho da puta e ela... Putinha santa... Se entregando,sendo chupada.

-Você tem razão.
-Enfim, você está mostrando o que é.
-Mostrando o que eu sou? Você sabe o que eu sou! Do que está falando? Agora não me conhece? Eu sou o podre, o maldito! O filho-da-puta envenenado com a tua saliva. E você? O que você é? Você continua sendo a mesma cadela que era na minha cama? Pede pra ele te bater também? Pra gozar em você?

Eu implorei, pedi a Jesus Cristo. Quis que ela morresse, ou que eu morresse. Eu quis sentir sua boca na minha. Sua língua. Meus dentes no seu pescoço. Minhas mãos no meio de suas pernas.
Eu a amava. Amava o gosto da sua pele. O cheiro. Ela se derramava, escorria como uma vela acesa em minhas mãos. Ela é minha droga, minha dependência, minha abstinência. Ela é a minha morte, meu câncer. A santa putinha que me lambia. A mulher da minha vida.

-Continuo. Faço tudo o que fazia contigo e mais um pouco. Mais do que você imagina. Sou a mesma cadela, a mesma putinha que você comia.
-Eu amo você.
-Cala a boca. Ama o caralho!
-Eu am...
-Cala a boca, porra! Não estraga! Nosso destino é discutir, nunca mais se entender. Não podemos mais ter o que já tivemos. Não estraga.
-Tudo bem. Tá tudo certo.

A aurora começava a brilhar, por trás das nuvens nascia um lindo dia e as pessoas começavam a sair para trabalhar, comprar jornal ou cigarros, tomar café da manhã nas padarias. Eu estava lá, na frente do mesmo bar. Acorrentado. Olhando para ela. Seu vestido, um palmo acima dos joelhos, sua coxa rígida. Suas mãos de criança, esmalte claro nas unhas. Seus cabelos caindo nos ombros frágeis. Seus olhos de anjo, roubando o azul do céu. Eu não controlo mais o que faço, não estou no controle.

-O que está fazendo?
-Como?
-Meu Deus, o que você está fazen...
-Desculpe, não foi minha... Desculpe, mas eu...

Minhas mãos... Estavam no rosto dela. Quando percebi estavam estacionadas no seu rosto. Porque me afastei? Porque ela não se moveu? O que eu estou fazendo? O que está me chamando? A boca dela não se move, seus olhos se fixaram. A boca dela. De novo, o gosto da boca dela, sua textura, colidindo com a minha, arrancando faíscas. Ela é a minha droga.

Ela diz...

-Não, por favor. Eu não vou aguentar. Acabou! Só... Esquece. Por favor... Por favor...

Ela deu três passos pra trás, se virou devagar e sumiu. Se misturou na aurora, se misturou com o resto. Eu fiquei. Dou o último trago, sento na sarjeta. Ela sumiu, junto com o amor. O amor. Enterrado, a sete palmos. O amor de mentira, a vida de mentira, a mulher de mentira. É tudo mentira! Porque verdade foi feita para as boas pessoas. Isso não é amor. Isso é putaria, putaria da boa. Isso não é verdade. É a nossa melhor mentira, a mentira contada milhares de vezes. A mentira de um miserável e uma puta santa. A mentira que definiu o que nos tornamos: impossíveis um para o outro. Nós descobrimos. Impossíveis... Nós descobrimos.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Na próxima estação

"Não passes o tempo com alguem que não esteja disposto a passá-lo contigo"

  Destranca-te. O dia é mais triste quando o amor não te alcança. É mais triste quando a solidão é a única dança. Engana-te. Deixe os outros com suas verdades, com suas idades. Não me importo mais, não por quem tu és. Me importo por quem eu sou, se estou contigo.
  Desvenda-te. Joga tuas lembranças na mesa, monta teu quebra-cabeça. As horas são lentas, me lembre antes que eu esqueça. Levanta-te. É dia de sol e céu azul, feito para se apaixonar na rua, a toa. Calma que o tempo voa. Se for deixar para trás, lembra-te que não sou só um amigo.
  Renova-te. Junta poeira em cima do que fica parado, fica em silêncio quando o telefone não toca do outro lado. Inventa-te. Deixe que o novo saia de dentro, solte o cabelo no vento. Um sinal, algo que nos mostre um começo para o final. Os escombros de um tempo de amor antigo.
 Liberta-te. Mágoas não completam coleção. Tristeza é permitir que o amor se vá, que desça na próxima estação. Permita-te. O sonho se faz nas ruas, de uma alma se fazem duas. Não deixe que estraguem teu dia. Sei que você sente-se sozinha, mas não faça de seu destino um castigo.

"A verdade é que as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e a gente continua se vendo por dentro como sempre foi, mas de fora os outros reparam.
Gabriel Garcia Márquez

domingo, 1 de abril de 2012

"tua boca no canto da minha..."

"E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos..."             
Pablo Neruda

  Mostro-lhe se vieres. Tenho tudo em mãos para lhe dar. Ela chora com medo, seu pavor de ser gentil. Medo de seus dias proibidos, de suas saudades e desejos reprimidos. E pela minhas veias ela corre, descalça, de vestido.  Em mim crava suas raízes, em mim crava seus dentes e suas unhas.  
  Despeja teu riso em mim, me machucando, brincando com meu equilíbrio. Como o impacto de uma onda, me rodando em um redemoinho de espuma e água azul, ela me gira com seus olhos. Mas não imploro para que pare, você sabe que isso não faz parte da minha natureza. Deixo com que brinque. Mesmo que tua boca me trague, mesmo que teus dentes me rasguem, deixo com que brinque. Porque te amo.
  E amo o jeito como vai embora. Deixando suas cicatrizes em mim, cicatrizes de âncoras que se arrastam, de suas correntes arrebentando em meu porto. Amo ver-te indo, sem saber se voltas. Amo-te com o beijo, com o vento, com o sexo. Amo tua boca no canto da minha, sua falta de coragem, sua indecisão. 
  Que seja. Talvez veja meus olhos em ti. Em tua boca vermelha, nos nós de seus dedos, em seus pés, nas voltas dos fios de seus cabelos. É o que somos que importa. É o que somos por trás de nossas tristezas, por trás de nossa solidão. Pode ser que não repare quando reparo em ti. Em sua boca desenhada, as marcas que teu sorriso abre, no charme de teus olhos, no desenho de seu rosto. Pode ser que não repare em mim.

"Depois de tudo te amarei 
como se fosse sempre antes 
como se de tanto esperar 
sem que te visse nem chegasses 
estivesses eternamente 
respirando perto de mim"
Pablo Neruda


segunda-feira, 12 de março de 2012

  Você está em lugar estranho. A cama que você deita, o sofá onde senta. Tudo parece fora do lugar. A conversa é diferente, as pessoas se revelam, o cheiro da casa é outro. A geladeira tem coisas diferentes, o banheiro é de outro jeito. O barulho dos carros na rua não é o mesmo. Mas a cerveja continua gelada.
  Você fala. Mais do que devia, menos do que podia. E a conversa continua até que alguém se canse, então você continua a beber, assistindo qualquer coisa na televisão, que também não é sua. Olhando para todos os lados, desconhecendo tudo, mesmo sabendo onde tudo fica. "Fique a vontade!".
  Amanhã a semana começa de novo, tão rapidamente quanto passou a última. Você pensou em tantas coisas, em tanta gente que já passou e mesmo assim deixou suas cicatrizes, gente que deixou suas marcas. Os pixadores do muro da sua vida. Os compositores da sua vida, os sócios da sua história.
  Você acha complicado escrever aqui. Tenta se habituar através do ambiente, fingindo que sua vida também é feita aqui. Mas por onde ela não é construida? Enfim, você continua sozinho, mesmo tentando se enturmar. Fingindo ser interessante para as pessoas pelas quais você não espera mais nada. Mas a cerveja continua gelada.
  Existe um gole de vodka, esquecido na geladeira. Mas será que pode te ajudar? Difícil saber, na sua memória as coisas se encaixam como um quebra cabeça sem todas as peças. Panelas, esfirras, alcool, sexo contado. O domingo vai.
  Elas estão lá. Esperando. Desistindo. Desistindo de mim, do que tenho a oferecer, do pouco de bom que tenho. Esquecendo da vida que levo. Nada disso é o bastante. O que você quer e quem quer conquistar? Neste mundo movido a motores caros, o que um pobre garoto movido a sonhos, músicas e alcool pode almejar?
  Pelo menos a cerveja continua gelada...

segunda-feira, 5 de março de 2012

 Você sempre tem alguém ao lado e mesmo assim continua se sentindo sozinho. Andando, sem saber o que falta. Parado, sem saber o que quer. Procurando algo que preencha o buraco dentro das suas vontades. Misturando milhares de coisas dentro de ti, transformando suas idéias em nitroglicerina. A qualquer balanço, em qualquer queda e a qualquer instante você pode explodir.
 E não há avisos. É pior que uma bomba relógio. Você sente o peso das coisas dominando sua vida, suas horas, suas prioridades. Chega um certo momento que ninguém mais pega sua mão para atravessar a avenida, você tem que se arriscar a dar seus passos, mas no fundo, você não quer decepcionar ninguém, certo?
 Às vezes, sua vontade é de pedir uma carona, sumir na estrada, desaparecer por um tempo. Deixar a poeira baixar. Você cansa de só respirar, respirar, respirar... Às vezes dá vontade de jogar tudo pra cima e deixar que tudo caia de uma forma diferente, e deixar quebrado o que se quebrou e continuar com o que permaneceu intacto.
 Mas o que você faz quando não sabe o que quer? Quem consegue te orientar, acender uma luz para que você consiga andar? Você escuta aqui, ouve ali, e todo mundo tem algo pra te dizer, mas às vezes o que eles falam não se encaixa pra você. E a maioria não vai te entender.
 Esse mundo é uma confusão. Tão confuso que às vezes é exato, preciso, como o maquinário de um relógio, e às vezes a engrenagem que atrasa é você. Gente comum não aguenta a loucura da cidade grande e você tem que enlouquecer um pouco mais a cada dia, para conseguir aguentar a vida no meio dessa multidão vazia.
 Você segura o tom, fecha o rosto e esconde a voz. Olha ao redor e consegue sentir eles te olhando e perguntando "O que ele está fazendo aqui?". E quanto mais você conhece gente, mas você se afasta, menos consegue gostar delas. Porque seus amigos de agora não têm a mesma inocência dos seus amigos de infância. De algum jeito, você prefere se manter longe, a sós, pra tentar pensar. Na sua cabeça, só você pode desatar os nós, mas por qual começar?

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

São Paulo em chamas.

   Sente-se. Vamos assistir a chuva tentando apagar o incêndio que nós provocamos. O Theatro Municipal, o Mercado Municipal, a Prefeitura, todos eles em chamas. Pessoas acenam do alto do Edifício Copan, do Altino Arantes, do Itália e do Martinelli. Gritam por socorro! Pessoas se jogam do Viaduto do Chá, do Santa Efigênia, da Ponte Estaiada...

   Que horas são? São Paulo despreza isso tudo, não é questão de patrimônio, arquitetura ou arte. Você sabe bem do que eu falo. Nesse momento as pessoas estão presas dentro do Metrô, respirando o mesmo ar quente. É um cenário apocalíptico diário. Em um dia caem asteroides queimando o céu, no outro as águas invadem as ruas engolindo sonhos.


   Aproveite, sinta o gosto do momento. Encha o peito de fumaça. Veja como é bonito o modo como as nuvens ficam vermelhas, como se estivessem em brasas. Quem foi que disse que não haviam vulcões ativos por aqui? Nós somos os vulcões, cuspindo nossos ressentimentos e desapontamentos, que liquefazem tudo o que permanece no caminho. Explodindo. Cobrindo a cidade cinza de cinzas.

   Não. Isso não é revolução. Nem mesmo sobrevive mais do que vinte e quatro horas. Isso não é indignação, não é comunhão. Nessa noite não existem heróis nem vilões. É um laboratório, um experimento. Amálgama. Mainstream e Underground. A combustão de nossas amarguras. Isso não é manifesto. Apenas um tapa na sua cara, um 'virar as costas' para os seus problemas. Somente um cuspe pra cima.

   Isso é viver em meio ao caos, viver em meio aos lobos. Toda a diferença que caracteriza essa padronização. Agora as pessoas correm, meu amor. Correm pela 9 de julho, pela 23 de maio, pelo Costa e Silva, correm pela Avenida Paulista. As pessoas fogem da sombra que invade devorando tudo, como se este câncer estivesse correndo pelas veias, artérias e vasos sanguíneos da cidade. Agora o seu dinheiro não vale mais, seu filho da puta! 

   São Paulo pegou você. Agora você é propriedade da cidade e não há mais o lugar do rico e o lugar do pobre. É tudo uma coisa só, como se a metrópole inteira fosse uma esquina. Uma loja de inconveniência. O fogo rasga a cidade. Pele, carne e ossos despedaçados por uma tesoura sem corte e enferrujada. Por trás das cortinas amareladas, de vidros cheios de marcas de dedos, por trás da subjetividade suja que insiste em nos impregnar.

   É como sentir as unhas nas costas. Um orgasmo. O suor frio correndo pelo seu pescoço e por entre os seios. O sorriso que se abre ingenuamente em seus lábios. Segue o espetáculo, um anfiteatro lotado de déspotas, hipócritas e miseráveis. Os que eram da esquerda estão azuis de medo. Os que eram da direita estão vermelhos de raiva. Há pessoas amontoadas, espremidas dentro dos ônibus de outro milênio e as grandes janelas são pinturas, retratos, grandes vidros que mostram para os que estão do lado de fora a merda de vida desprezível que você cultiva e o cansaço que armazena.


   Olhe para os rostos, meu anjo. Dá pra enxergar o medo em cada linha de expressão, em cada pupila dilatada. As ovelhas perderam seu pastor e agora não importa mais qual livro velho você segue. Acabou a luz. Os semáforos estão desligados, eles perderam o juízo. Os telefones celulares estão fora da área de cobertura. Na televisão, fantasmas; No rádio, estática. Olho pra ela. É lindo vê-la de perfil, com o brilho laranja nos olhos claros. Ela sorri, deliciando-se com o desespero deles. "Eles parecem formigas fugindo de uma inundação. Ratos abandonando o navio." As mãos dela ainda cheiram à gasolina. Assistimos ao Tietê se enchendo de sangue. Ao Parque do Ibirapuera sendo invadido pela nuvem de gafanhotos. Ao cogumelo atômico na Catedral da Sé e sua onda radioativa, varrendo a imundice. Se aproximando de nós.

   Ainda ouve-se o toque de recolher. Grades e arames farpados, limitando as fronteiras dessa infelicidade. O alarme em alta ressonância na órbita dos ouvidos. Um grunhido, um uivo, um clamor. A voz que ultrapassa a barreira de calor caminhando de pés descalços pelo asfalto quente. Fuligem, fuzis e gás lacrimogênio. Só basta uma faísca e um pouco de oxigênio, talvez conhaque, querosene, ou sangue. Algo que purgue, que consiga exceder o limite dessa impermeabilização.

   Ela apaga o cigarro e se levanta. Pega sua xícara de chá de hortelã, calça os chinelos e me beija na testa. Ela diz 'boa noite', entra e desliza a porta de vidro, me deixando sozinho na sacada. Me lembro do gosto de seu sexo, da textura de sua pele,  da rigidez de suas coxas e o calor que existe no meio delas. Lembro do gosto de sua saliva, da minha língua em seu mamilo, de como ela morde a boca, torce o corpo, fecha os olhos e respira fundo. Ouço sirenes, latidos, gemidos. Pode se ouvir o barulho do papel queimando a cada trago. Ela vai deitar. Eu vou ficar aqui, pensando em como seria ver a cidade inteira ardendo daqui de cima. Talvez acabe me envenenando com doses semi-letais de álcool, pelos lados da Rua Augusta, esperando que essa chuva ácida caia e apague os incêndios da minha memória.




"Fiz comigo mesmo um pacto silencioso de não alterar uma linha do que escrevo. Não estou interessado em aperfeiçoar meus pensamentos, nem minhas ações. " -Henry Miller - Trópico de Câncer

sábado, 14 de janeiro de 2012

"Seja marginal, seja herói."

   Sente-se ou peça outra dose. Brinde, escorregue, dance e caia. Vá no banheiro quantas vezes julgar necessário. Beije, procure, acenda um cigarro e encoste os cotovelos no balcão. Faça besteira, fale alto, gesticule. Vomite, durma, desista. Mas nunca, nunca deixe seu copo cheio cair.
   Ando cansado dessa velha história de não desistir. Às vezes, desistir é a melhor decisão que você pode tomar. Pare de pensar no que as pessoas querem que você pense. Se foder é habitual, todo mundo se fode. A diferença fica entre os que se fodem com o copo cheio na mão e os que se fodem com o copo quebrado no chão.
   A pior coisa que pode te acontecer é ter medo de desistir, porque coragem pra empurrar tudo com a barriga não falta à ninguém. Espere. Veja as coisas acontecendo. Não escolha um lado tão rápido, tenha paciência. É tudo feito de escolhas e renúncias, não é? Então pare com esse otimismo, essa esperança de que tudo vai dar certo, pois não vai e é exatamente essa a graça de viver.
   A vida perfeita só se encaixa em um mundo perfeito, para pessoas perfeitas, as quais nós não somos. Cabe-nos a incerteza, o êxito e o hesito. Felicidade? Todos nós queremos. Mas quem realmente sabe ser feliz por completo? Grite os seus defeitos, pois as suas qualidades nenhum filho da puta vai reconhecer. Seja você mesmo, ou não. Seja o que você quiser ser, o que você tiver que ser e pra quem você puder ser. 
   Seja o melhor e o pior que puder. Seja o melhor e o pior exemplo para se seguir. 'Seja marginal, seja herói'. Porque essa porra de vida passa rápido, meu amigo, e você não vai querer ser a mesma pessoa pra sempre. Beba, torça, grite. Fale quase tudo o que você tem guardado, faça pose, mude seu jeito. Mude sua vida.

Mas nunca...

...Nunca deixe seu copo cheio cair.

Talvez seja cansaço, cansei de talvez...

   É o veneno que escorre, por entre bocas estranhas. Em algum canto escuro qualquer, o calor por entre a ponta dos dedos. O cheiro que domina o quarto, os pés descalços desfilando pelo piso de madeira. A pele branca, a curva das costas, o precipício.
   O gole que queima, a fumaça que arranha. Mostre tudo e um pouco mais do que tiver, não se esconda por trás de dúvidas e medos. Teu amor eu descarto, não sou mais um garoto em sua brincadeira. A boca destranca, és o que mostras, fogos de artifício.
   Esqueça de tudo, mentira tem hora. Não me peça pra aprender a perder. Talvez seja cansaço, cansei de talvez. Eu vou arrumar algo ou alguém para culpar. Vou escolher uma janela para ver outro lugar. Sei para onde ir, só não sei como chegar. Que siga o vício.
   Então fico mudo, vivo o meu agora. Se queres sol eu começo a chover.  Não quero um pedaço, é só timidez. Eu vou atrasar, vago, além, devagar. Procuro idéias e sonhos baratos para alugar. Eu quero sair, tentar construir minha sorte ou azar. Que seja o início.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Ela gosta de apagar a luz.

   Ela fala. Alto. Sem vergonha do que diz e do que escutam. Ela passa. Andando por entre os olhares, por dentro dos pensamentos maliciosos. Sorriso fácil, não pra qualquer coisa, não pra qualquer um, mas quando ela abre um sorriso você não olha pra mais nada ao redor.
   Ela pergunta. Se interessa pelo que você tem a dizer e sabe ouvir, olhando pra você, nos olhos. Bebendo, falando, sorrindo. Ela se olha em espelhos, quase o tempo todo, é sua mania. Ela levanta, arruma o decote e sai.
   Ela quer saber. "Quem você é?". Ela te descobre, talvez não como você seja, mas de um jeito bem parecido. A diferença é que ela não tem medo de suas suposições. Ela entende, ou finge que entende. Se não entende, ela sorri... E de alguma forma, não faz diferença.
   Ela é perfeita, porque não presta. Não presta pra se ter, nem pra se confiar. Não presta pra mim, acho que para ninguém. Ela gosta de ficar por cima, de tomar o controle. Gosta de mostrar que manda. Ela gosta de apagar a luz. E depois que as luzes apagam eu não sei mais explicar. Ela não presta, igual à mim, à você e à todo mundo. Ninguém é confiável.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sempre haverá conhaque...

Estupre sua mente
Tire dela tudo de bom que ela pode te proporcionar.
Tire seu orgulho, sua honra, suas felicidades.
Liberte seus gritos de dor mais profundos.
Enforque-se em suas palavras amarguradas

Afogue-se em mais um copo de conhaque
Calma, tudo ficará bem!
Só mais um copo de conhaque!

Você se sente tão vazio,
Mas ao mesmo tempo tão cheio de tudo.
E o que queria era poder jogar tudo para o alto
Se excluir no seu mundo,
Com suas longas risadas solitárias.

Fique calmo e se afogue mais uma vez,
Com um conhaque você começa a ver as coisas melhorarem.
Basta uma doze para você começar a sentir o efeito,
Irá se sentir realizado com mais um copo de conhaque.

Você não precisa se sentir tão frágil
Enquanto houver conhaque correndo pelo seu corpo se sentirá mais forte.
Não há por que sentir medo!

Se embebede e aproveite seu caos interior

(Gabriel Tatibana)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Like a stray dog.

   Eu estou sempre por perto... Mesmo quando desapareço. Preste atenção, as coisas não mudaram tanto assim e você consegue me encontrar se quiser. Ainda estou na mesma casa, na mesma cidade, com o mesmo número de telefone.
   Neruda me disse: "É tão curto o amor, tão longo o esquecimento." e quer saber, ele tem toda a razão. A questão é que eu sou um cachorro que cansa rápido de correr atrás de um carro que eu sei que não vai parar, pelo menos não tão cedo. Eu me canso rápido.
   E quer saber? Outros carros vão passar sem que eu precise mudar de rua. Os carros vão passar. Quer mais? Posso correr atrás de carteiros e de gatos também. A rua me dá isso, sem que eu precise pedir, ela me oferece isso. Além do mais, sempre haverá alguém pra me proibir de entrar, me espantar dos lugares onde não devia estar, sempre haverá um lugar onde eu consiga me alimentar.
   Não há fronteiras nesta cidade cinza, são apenas linhas imaginárias que eu evito de pisar. São rachaduras neste chão impermeável, por onde as raízes das árvores respiram. A única fronteira que nos aprisiona é a fronteira da alma. Mas você não deve entender isso, na verdade eu mesmo não chego perto de entender.
   Mas você sabe, estou sempre por perto. Dentro ou fora de garrafas, em meio às folhas dos seus livros ou das plantas da sua casa. Estou dentro de cada gole curto de vinho que desce por sua garganta. Estou sempre ao alcance e você nem mesmo precisa se esticar demais. Eu estou aqui. E você? Onde está?

"Little sister. I've been sleeping in the street again. Like a stray dog."

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Mas você sempre some...

   "Por isso eu corro demais, corro demais... Corro demais, só pra te ver, meu bem." 

   Eu sei... A vida nem sempre colabora, o tempo corre de vez em quando, estaciona vez outra. Mesmo que o mundo continue girando em um contínuo movimento, alguma coisa sempre elimina a gravidade ao nosso redor, diminui nossa noção de tempo e espaço... E tudo bem, isso tudo é a nossa vida.
(Mas você sempre some.) 
   É foda! Entre um gole de uísque e outro de cerveja. Mesmo quando estou sóbrio... É difícil não saber o que você realmente quer de mim, e isso não é uma cobrança. Apenas dúvida e esperança. Eu quero você, de qualquer jeito, em qualquer dia, à qualquer preço.
(Mas você sempre some.)
   Talvez não seja culpa sua, talvez quase nunca seja, mas eu sinto saudades e quase sempre alguma coisa me impede de te ver, de conversar... E é por isso que eu escrevo aqui, pra ti. Pra que você se encontre nessas linhas, em algumas frases. Pra que você saiba que eu lembro de você. Pra que você saiba que eu me importo.
(mas você sempre some.)
   Só não some da minha cabeça, da minha rotina, das mensagens do meu celular. Só não some dos meus pensamentos, da minha vontade. Só não some das lembranças dessa sua boca linda, não some do cheiro da minha roupa. Você não some, nunca, quando lembro do sorriso que me deixa em pedaços.
(Mas você sempre aparece.)
   Às vezes, não gosto disso. Acho que acaba te afastando mais ainda. Não gosto de falar tão abertamente, acho que me deixa vulnerável. Acho que me entrego muito. Pra você. Sem querer. E você consegue ver? Te vi por tão pouco tempo e te acho tão importante, tão necessária... Devo estar ficando louco, devo estar querendo muito com meu pouco. É normal, às vezes , esqueço por algum tempo e consigo seguir solto.
(Mas você sempre aparece.)

"Se você vivesse sempre ao meu lado eu não teria motivos pra correr e devagar eu andaria... Eu não corria demais. Agora eu corro demais... Corro demais, só pra te ver meu bem."

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Knockout!

Olhe para dentro de ti e perceba: Você não precisa gostar de tudo!
   Na maioria das vezes queremos o difícil, o que não podemos ter. Você não precisa de alguém que te entenda, só precisa começar a entender que você não foi feito para ser desvendado, entender que você é um mistério pra você mesmo e sempre será. Você é um segredo e se deixar que te descubram, não será nada de mais importante.
   Chega de toda essa conversa! As pessoas simplesmente não são feitas umas para as outras. Elas são feitas pra si mesmas. Você pode até esbarrar com alguém parecido contigo, se tiver azar. É uma lastima dividir tempo demais com alguém tão igual, que sempre te compreende. Você não precisa disso! Se quer alguém que te obedeça e te aceite, arrume um cachorro.
   A ideia de compartilhar momentos e experiências com alguém deve servir para absorver coisas boas e ruins, e na maioria das vezes as pessoas vão te decepcionar, inclusive as pessoas que você trouxe pra mais perto. Ninguém é imune a isso, porque as pessoas falham, não porque não te querem bem, apenas porque são pessoas e isso basta.
   Olhe pra dentro de ti e aceite. A dor não precisa ser ruim, só é se você escolher assim. Acabamos sofrendo por antecipação, por coisas que não aconteceram, por dúvida. Você não precisa de alguém com dinheiro... A quem você quer enganar? Acha que alguém vai mudar sua vida? Você não precisa atualizar seu estado civil. Não precisa de aprovação, nem de comentários.
   Você só precisa se dar um tempo. Você precisa se encontrar com os amigos que sumiram, lembrar do que era importante, das coisas que uniam copos, garrafas e gargalhadas em uma mesa de padaria. Lembrar das coisas simples. Você só precisa respirar, sentir as dores dos golpes. Não precisa se levantar, deixe que eles abram a contagem e só se erga quando essa tontura passar e você conseguir andar reto. Depois disso, não há nada que um banho, um café quente e alguns comprimidos não te façam superar.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

- I really can't stay...

   - But baby, it's cold outside.

   Ainda me pego pensando em tudo isso, na mentira que tudo parece ser. Em tudo que os olhos insistem em ver. Ainda me afogo em doses intragáveis para amortecer tudo que desaba dentro da minha memória.   Fica mais leve assim, mesmo que me tire do caminho por algum tempo, mesmo que escape alguns segredos de dentro de mim.
   No final, eu sempre estrago tudo, com um toque, como um Midas ao contrário. Mas é de minha natureza. Cada pessoa tem uma qualidade predominante e a minha é acabar com tudo. Alguém precisa fazer isso, assumir o compromisso de transformar o bonito demais em algo normal, que pode ser tocado e quebrado. São só palavras.
   Houve um tempo em que eu escrevia essas maluquices em guardanapos, em mesas de qualquer bar, bebendo cerveja e conhaque, fumando um cigarro atrás do outro e despejando a sujeira das minhas idéias naquele papel engordurado. Para que outro pobre diabo lesse uma história de má sorte que não fosse a sua própria. Às vezes, saber que as outras pessoas têm problemas nos conforta um pouco. Um pouco.
    Esse tempo ficou pra trás. Agora bebo menos, quase não fumo e despejo minha sujeira nessa tela branca e ainda tem gente que gosta... Vai entender. Tanta gente doida nesse mundo, gente diferente, gente igual. Gente que agora se comunica o tempo todo, como se estivessem ligadas por fios, recebendo choques de vários lados. Me preocupo com essa interação. Muita gente, muita comunicação, muitas idéias... Isso não dá certo!
   Sou um pouco egoísta, meio vaidoso, não gosto de muitas opiniões. Gosto de quem não concorda, mas não suporto quem diz que estou errado. Tudo é relativo, tudo tem seu lado. Por mais que muitas vezes me engane, eu fico cansado de tentar fazer dar certo. O fracasso está sempre por perto.
   Ainda me perco, em ruas que não conheço, nessa cidade inesgotável. Ainda me perco nos balcões dos bares, nos banheiros sujos, me perco sentado no meio-fio. Ainda me perco em labirintos, em esquinas, nos cruzamentos sem semáforo, no trânsito. Me perco na lembrança da boca dela, as mãos deslizando nas curvas entre a cintura e o quadril. Mas ela sempre vai, ela sempre sai. Mesmo com o frio que faz, ela não pode ficar. Ela é diferente, acorda cedo, se esforça. Ela encontra tempo para tudo, as coisas que precisa e as coisas que gosta de fazer.
   É engraçado tentar escrever ou pensar em outra coisa. Ela é ciumenta, gosta de atenção, não me deixa pensar em muita coisa por tempo demais. Ela tira as coisas do lugar, vira o mundo de cabeça pra baixo, e de repente é só ela que importa. É como se as leis da gravidade não se aplicassem mais, é tão difícil deixar tudo no ar como ela faz. 
   Ainda me pego pensando em mim, do dinheiro que preciso, da azia que não me larga. Ainda me pego pensando na chuva, nos carros passando, no silêncio do mundo quando acaba a força. Ainda me pego pensando nos vícios, nos desenhos amassados, nas palavras mal escolhidas. Ainda me pego pensando nos amigos que não vejo, nos livros que eu não li, nos dias que não voltam mais. Ainda me pego pensando que tudo isso que penso sempre dá lugar a ela, e que nada faz-me pensar como ela faz.

sábado, 29 de outubro de 2011

Se você é o meu melhor vício...

  Entra, encosta a porta e senta. Hoje não vamos sair... Tudo o que precisamos está aqui e se não estiver a gente inventa e deixa em câmera lenta. Eu já abaixei o som, eu coloquei um samba bom para a gente escutar deitado, pois não há nada de errado em só querer ficar assim e com você perto de mim...
...o mundo pode explodir lá fora.

Me ensina a te decifrar, menina. Eu quero encontrar um jeito de te mostrar que o defeito anda de mãos dadas com o que está certo, eu posso não ser muito esperto, mas sei qual é o meu caminho. Me perco em goles de vinho, mas eu me acho em você e eu não sei nem mesmo porque, se isso tudo é um início. Se você é o meu melhor vício...
...o mundo pode explodir lá fora.

Linda, eu adoro este teu jeito doce, é como se isso tudo fosse um sonho de um domingo de sol. Cerveja e jogo de bola. Café, calma e Cartola. Nesta cama só nós dois e um lençol.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A eterna busca de felicidade no meio da lama desta infeliz cidade.

   O que te mantém no chão, às vezes, é uma outra perspectiva sobre a gravidade. O que te mantém no chão é o peso do ar que entra em seus pulmões. O ar lotado de fuligem, poeira e doenças alheias dessa cidade. Este ar re-respirado, compartilhado, quase morno.
   O que te mantém em movimento são essas caldeiras, colecionando remorsos em forma de carvão em brasa. É o que move suas engrenagens, o que te bota nos trilhos. Cuspindo pra cima toda a fumaça que resulta da combustão de seus ressentimentos.
   Talvez o que te mantenha vivo seja o fato de você sempre precisar de algo novo e/ou melhor para ser feliz. Talvez já deveríamos ter acordado e esquecido desse sonho de felicidade completa. A eterna busca de felicidade no meio da lama desta infeliz cidade. Talvez o que te mantenha vivo seja o fato de você ainda encher o bolso de outras pessoas, tentando encher o seu próprio, para em algum momento mostrar para outras pessoas as coisas que você agora tem.
   Mas é claro, às vezes o que você possui acaba te possuindo. Tudo isso acaba sendo complicado, quase sempre indecifrável, mas não se você tem Vodka. Tudo depende do fato de você ter ou não uma garrafa de vodka para diluir toda essa sujeira que vem e vai. Você sabe, vodka é legal para levantar a auto-estima.
   Caralho, essa porra de loteria podia cair um dia na minha mão. Aí nunca me faltaria vodka para esterilizar essa imundície. Compraria uma grande casa no campo para minha mãe, com as coisas de que ela precisaria. Botava a vida da minha família pra frente e sumia. Fugiria desse lugar chato, teria uma parede cheia de guitarras e poderia ficar até o resto da minha vida, se assim desejasse, bebendo com os amigos e ouvindo jazz.
   Mas como eu disse, o ar daqui é pesado demais e não permite que nossos pés se afastem demais do chão. Vivemos sonhando que seremos, alguns até acreditam que já são, pessoas que realmente importam, homens e mulheres que usam roupas realmente boas e frequentam restaurantes requintados. Mas não basta só isso, o que define é o status, a altura da patente. Vivemos sonhando com a porra da vida de romance, à hollywoodiana, e todas as coisas que não teremos.
   Quer saber? Releve tudo isso. Não faz muito sentido, talvez porque me falte vodka, talvez porque esse vinho branco parece derreter minha vontade de permanecer acordado, assistindo o domingo acabar. Esse tipo de coisa não me aconteceria se eu fosse russo ou não fosse um maldito bêbado. Foda-se! É como um grande amigo meu costuma dizer: "prefiro ser um bêbado conhecido do que um alcoólatra anônimo". Tem toda a razão, caro amigo.
  

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Labirinto

   Da janela do meu quarto eu vejo carros estacionados, uma porção deles, centenas, como um cemitério silencioso, ou um supermercado em dia de promoção, mas raramente alguém aparece, a paisagem então permanece quase sempre imóvel.
   As lâmpadas cospem luzes alaranjadas, uma ou outra janela nos prédios ao redor mostram sinal de vida. Entre uma tragada e outra a linha de raciocínio vai e volta tantas vezes que me flagro sem saber ao certo no que estou pensando. É como um emaranhado de fios, nem todos se tocam mas acabam sempre conectados ao mesmo ponto fixo.
   A árvore que fica em frente à minha janela parece um ecosistema completo, compartilhado por gatos que gritam e se arranham, pássaros que aproveitam a ausência dos felinos para se aninhar e namorar, e morcegos que aparecem quando o motel de folhas está vago. Os morcegos sempre me assustam.
   Minha casa é distante da rua, poucos ruídos chegam aqui, deixando tudo em um silêncio sufocante, como uma catedral vazia. Às vezes, raramente, algum som perturba este vácuo: um cachorro latindo na vizinhança, o som de um carro correndo pela avenida, o grito das turbinas de um avião solitário, rasgando o céu às escuras.
   Às vezes tenho boas idéias, às vezes crio teorias e labirintos. Imagino como o futuro deveria ser. Lembro-me de pessoas e me pergunto se elas ainda se lembram de mim. Penso em amores antigos, em momentos que parecem imaculados, dentro de porta-retratos que decoram as prateleiras da minha memória. Sorrio entre uma lembrança e outra, praguejo entre uma tragada e outra.
   Já pensei em esvaziar algumas dessas prateleiras, para colocar coisas novas no lugar daquela antiga coleção  de pessoas, lugares e momentos usados, que eu teimo em armazenar. Mas ai me lembro de que não posso simplesmente queimar o arquivo e não estou disposto à amontoar mais coisas.
   No final, acabo esquecendo as coisas que penso, a maior parte delas, como se estivesse mentindo pra mim mesmo. 'A quem eu quero enganar?', eu adoraria ser um otimista, fazendo uma faxina por dentro, tirando a poeira do meu museu particular e inaugurando uma nova ala, apenas para a exibição de novidades. Mas na realidade, tudo funciona como um parque de diversões enferrujado, frequentado pelo mesmo público, que já conhece o gosto do algodão-doce, da pipoca e do refrigerante, que nem mesmo sente mais aquele frio na barriga quando passeiam em uma das minhas montanhas russas.
   Mas eu estava falando da janela do meu quarto, um portal para alguma outra dimensão impregnada pelo cheiro de uma 'dama-da-noite' plantada aqui por perto. A janela do meu quarto, onde meu pensamento vai longe, acelerando e rebobinando esta fita, inúmeras vezes. É um flerte perigoso com o tempo, eu me deixo levar pela dança, pela valsa, pela sinfonia do vento que derruba e arrasta as folhas da 'àrvore-motel'.
   As casas são todas iguais, como embalagens, pintadas com a cor da monotonia. Aqui existe uma tranquilidade assustadora, daquelas que aparecem após uma tempestade ou um naufrágio. A única diferença é que há muito tempo não existem ondas, me jogando de um lado para o outro nesse mar, turbilhões rodopiando tudo como se a sua vida estivesse dentro da lavadora de roupas. Existe apenas uma marola, suave, que traz náuseas.
   Eu disse que meu pensamento vai longe demais. O cigarro está no fim, minhas idéias também. Vou tentar dormir antes que a claridade do dia venha devorando as núvens amarronzadas que cobrem o céu. Desculpe-me, mas preciso fechar a janela.

...meu espetáculo sem tanto glamour.

   Quer saber? Acho que somos tão diferentes, tão distintos, de mundos tão distantes... E é exatamente por isso que quero saber como é participar disso.
   Não faço questão de muita coisa, não cobro tanta atenção, só espero que se lembre, às vezes, das coisas boas que escrevo e esqueça todas as vezes em que eu insisto em estragar tudo. Só quero que saiba que é estranho ficar longe, sem contatos. Até pensei que pensaria menos à seu respeito, mas agora sim, qualquer coisa me lembra você, não importa o que seja.
   Tudo bem, só quero te lembrar que estou por perto. Verdade, tem razão, estou ilhado, sem nenhuma garrafa que possa jogar no mar, sem nenhum sinal de fumaça. Mas estou por perto e você, mais do que ninguém, sabe como me encontrar.
   Olha... Só quero te mostrar um mundo diferente. O universo onde cresci, solto, descalço na rua. Só te ofereço uma participação no meu espetáculo sem tanto glamour, mas repleto de novas experiências. Só quero que veja que eu sou mais que um perfil, mais que acordes e versos, sou mais que essas linhas explicam. Só quero que veja que sou mais que as roupas que uso, das coisas que faço e do pouco dinheiro que tenho. Só quero que veja que eu só vejo você, em várias coisas diferentes. Quero que veja que é tudo muito diferente dessa vez, tão diferente que pode acabar sendo o apropriado.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

   Deve valer a pena! Não pensar tanto nos passos antes de ir atrás do que se quer. Deve valer a pena, tentar de novo, achar em alguém algo parecido com o que você já sentiu um dia. Deve valer a pena tentar ser feliz com outra pessoa, ser feliz por outra pessoa.
   Deve ser estranho, quando as coisas aceleram. Assumem grandes proporções de repente. Mais estranho é quando você acaba se sentindo à vontade com tudo isso. Feliz por isso estar acontecendo, na velocidade que for. É bom quando te mostram que você ainda consegue ser uma pessoa da qual sentia saudade de ser.
   Deve ter algum jeito, igual o que as outras pessoas encontram pra se livrar desses pensamentos. Deve ter algum jeito de se abdicar, de se negar. Deve ter algum jeito de esquecer... Esquecer essa ideia de que as coisas serão iguais. Deve ter algum jeito de voltar a gostar de alguém, de se desmanchar quando ela abre um sorriso. Deve ter algum jeito para não se sentir um adolescente quando vê uma foto ou quando ela não está por perto.
   Deve valer a pena ser estranho e ter algum jeito para não ligar pra mais nada e continuar remando, 'mesmo se esse barco estiver furado'.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

à cem quilometros por hora...

   Gostar de gente demais desparafusa um pouco a cabeça. Rasga a gente no meio, despedaça tudo como se fosse caco de vidro. Acho que somos gasolina, sempre esperando uma faísca. Estamos sempre esperando uma oportunidade para foder tudo... E quer saber? Que se foda.
   De um jeito ou de outro, o destino sempre te coloca contra a parede. Te revista, procurando por explicações ridículas escondidas. Pede sua identidade e te dá um tapa na cara quando você esquece ela em casa. Algumas pessoas simplesmente não valem a pena e isso não é tão ruim. Não adianta se esticar demais pra alcançar o que não vale a pena.
   É claro, falo disso tudo. Eu também não valho a pena. Não se já passei, se o que tinha pra oferecer acabou e deixou só lembranças no lugar. Chega de sonhos, nesse mundo existem leis feitas para serem quebradas e outras para se seguir à risca e quando colocamos os pés do outro lado da linha podemos ser surpreendidos pelos vigilantes. Dá pra entender? 
   A raposa que entra no galinheiro vigiado é confiante demais, esperta e rápida demais e por isso passa pela cerca em busca dos ovos com as orelhas levantadas, mas quando se aproxima demais acaba desprezando os perigos, não sentindo o cheiro de pólvora e o cano frio da espingarda. Eu sei, metáforas cansam, assim como as pessoas, algumas pessoas deviam chegar, ficar e ir embora de vez.
   Porque nós sabemos, nos fazemos de estúpidos, mas sabemos que essa vida é uma porra de estação de trem, trazendo pessoas que talvez não fiquem tanto, levando pessoas que talvez voltem logo. É simples resolver, simples decidir, muito simples de perceber que isso é semelhante àquela viagem que fez algum dia para qualquer lugar que te traga saudade e uma felicidade intragável, mas que por algum motivo faz pensar que nunca vai voltar, que no máximo passe por ela à cem quilometros por hora na rodovia. O que te faz pensar que se voltar a vê-la vai ser de longe e no entanto também te faz pensar que é exatamente assim que deve funcionar, pois certas viagens devem ser feitas apenas uma vez.

sábado, 27 de agosto de 2011

Eu bem que te avisei...

Você tem esse jeito estranho de me fazer perder a razão sobre qualquer discussão.
Você vem, mas ao mesmo tempo sei que você está procurando alguém que possa te levar.
Mas além disso tudo nós buscamos proteção, disfarçando de cristão o que é pagão.
Tudo bem, temos mais momentos para desperdiçar enquanto não sabemos onde vamos chegar.

Eu tentei mas não vou negar, sei que você está fugindo por um triz do que te fez feliz.
Eu não quis, mas não vou mentir, nem devo fingir que no fundo eu não sei mas eu bem que te avisei.

Você quer arrumar um modo de me enlouquecer pra eu não ver que você não sabe mais o que fazer.
Se puder vai mostrar desprezo ou mesmo distração mas duvido que pode expulsar o fogo do pulmão.
Minha mulher. Minha menina, imagina como vou viver se você não voltar quando outro dia nascer.
Mas se vier traga o seu desatino. Eu sou menino e gosto de atenção, mas não leve do meu destino a direção.

Você diz que quer tomar um Domecq, fumar outro beck pra se iludir já que eu não te faço sorrir.
Mas eu sei que junto de todo sorriso sempre vem um aviso sobre o perigo por trás de um abraço amigo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Provocar o acidental.

Eu preciso ir e deixar tudo aqui, sem olhar pra trás.
Tenho que fugir porque percebi que não posso mais
Tentar omitir que tudo o que ví não me deixa em paz.
Só posso fingir que já esqueci quanto tempo faz.

Faço uma oração, peço proteção. Chegou a minha vez.
Vou com os pés no chão, faço a opção que você não fez.
Não me estenda a mão. Não me chame em vão. Tenha sensatez.
Não devo perdão, pois entendo o não, mas não o talvez.

É a explosão dos nossos sinais que tornou veloz.
A atribulação destes carnavais que levam a voz.
Nessa colisão de lábios iguais provamos a nós
Que essa solidão é ruim demais para seguir a sós.

Procurei saber. Busquei entender pra não me enganar.
Tive que correr para aprender como começar.
Devo me atrever e interromper o meu aguardar.
Eu não sei você, prefiro precaver que remediar.

Vou no singular pois no teu plural não há vez pra mim.
Pra não me algemar no habitual eu prefiro assim.
Tentar provocar o acidental com um pouco de gim.
Para evitar que o inicial leve-me ao fim.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

...como tentar definir as cores para um cego.

   Eis que derrama-se o mel pelo canto dos lábios. Escorre pelo pescoço como a seiva de uma árvore, como o suor. Uma gota de vela derretida, uma lágrima branca caindo. Cada suspiro que damos não volta, não retorna ao peito o ar que já usamos. Tentaram de tudo, mas ainda caímos sem pára-quedas. É raro, mas minha imaginação falha de tempo em tempo, por sobrecarga, por sobriedade. É como tentar definir as cores para um cego e executar uma sinfonia para um surdo.
    É fácil! Dentro do conjunto se destacam os melhores indivíduos, assim como as melhores frases do texto. Cansamos de saber que no melhor lugar só estão os melhores. São voltas da vida, às vezes acelerando, às vezes com o pé no freio, mas nunca parada. Às vezes é tão difícil acreditar em quem está ao lado. Mas deixe que tudo pareça desconexo hoje, porque isso muda o cenário, pinta um sol amarelo por cima da tua tempestade. Talvez você arrume algo pra beber, fumar ou usar. Talvez encontre uma briga para por fim ou para começar.
    Depois de um tempo é possível tanger o inconsciente, deixá-lo sair pra fora do corpo. Explodindo pelos sete buracos da cabeça, fugindo, correndo, irradiando. Então espera-se que volte, com novas luzes para os olhos. Novos sabores, explodindo nas línguas. Aromas aguçando o faro e músicas para os ouvidos. Um festival de novidades, uma nascente brotando da terra velha. A germinação de experiências.
    Mas  é claro, devem estar se perguntando o que eu quero dizer com tudo isso. Fato é que não importa a razão que tenho quando escolho palavras. O relevante é o que pode-se interpretar. O indispensável é somente o que alguém encontra sentido e reconhecimento. De resto sobram frases ruins e tentativas, ambas efêmeras. Tente não seguir a maioria e procurar qualquer sentido evidente, tente resolver as palavras cruzadas sem olhar as dicas no rodapé. Pois é tão transitório, previsível e repulsivo. Não tenha medo de que o amor seja breve, de que seja só uma carona, um passageiro que desce no próximo ponto. Só tenha medo de não abrir-lhe as portas e convidá-lo para dar uma volta.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Às vezes.

   É engraçado. Vai me dizer que continua sendo aquela mesma pessoa, que poucas coisas mudaram, que ainda bebe aquele conhaque com licor de cacau. Puxe uma cadeira e peça algo pra beber, faz muito tempo que não nos falamos, conte-me boas notícias. Hoje não quero falar de mim pois você sabe o que fiz.
    Você sabe que andei fugindo, não como um foragido mas como alguém cansado demais pra permanecer parado aqui. Não fui tão longe, permaneci na cidade. Só dei um jeito de esquecer o celular, dei um jeito de esquecer os meus e-mails e recados. Fugi pra dentro de mim, pra fora de ti. Tentei fugir dessa liberdade, da livre escolha.
    Acha que eu engordei? Que milagre, não? Devo ter ganhado alguns quilos, afinal estou fumando menos, comendo mais. A ansiedade me faz abrir a geladeira de 15 em 15 minutos, na esperança de algo delicioso se materializar lá dentro como em um toque de mágica.
     Você ri.  Ri porque não é contigo, conheço teu drama sobre quilos a mais.  Deixe isso pra lá, aliás, você está ótima. Achei que você não ficaria mais bonita do que já era quando te vi na escada. Eu estava enganado, olhe só pra ti. Está linda, mas acho que já disse o suficiente. Não quero que pareça que estou dando em cima de você, sei do seu compromisso.
     Falando nisso, como vai seu namorado? Como é o nome dele mesmo? Parece ser um bom rapaz. Tudo bem, sempre vou achar estranho você com outro cara que não seja eu, mas ele parece ao menos te fazer feliz. Não sei se já te perguntei, mas eu te fiz feliz? Por muito ou pouco tempo, mas te fiz? Eu sei que te fiz sofrer, isso você deixou bem claro, mas já ficou bem feliz comigo?
     Às vezes tenho saudades de ser bem feliz. Não faça essa cara, você sabe do que estou falando. Não, eu não virei romântico, nem saudosista e é claro que sou feliz. É que hoje as coisas parecem mais nubladas, nem muito sol, nem muita chuva. Você viu? Não sou mais tão grosseiro como eu era, ou como eu pensava ou fingia que era. Dê um tempo, eu era um garoto, tinha uma fama e uma cara de mau para manter.
    Vamos mudar de assunto. Não quero ficar aqui falando sobre nós. Se a cerveja não demorasse tanto pra chegar nem teria tocado nesse assunto, acho que vou ter que gritar com algum garçom. Antes de perder a chance eu queria te perguntar se um algum dia poderíamos fazer isso de novo. Sentar, beber, conversar. Sei que ele tem ciúme de mim, tem toda razão. Vou entender se não achar uma boa ideia. É que às vezes tenho saudade de ser bem feliz. Às vezes tenho saudade de ti.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

 Era um desafio. Uma aposta, não para ver quem seria o melhor ou mais correto. Tampouco uma provocação entre rivais. Apenas uma forma de incitar o que temos, esquentar até o ponto de ebulição e assistir isso ferver em um bom tamanho e em uma fonte legível.
 Tudo bem, ela gosta de diálogos. E vocês sabem que eu não escreveria um agora. Isso daria muita moral para ela, que deve estar concentrada em sua parte da aposta, em seu universo vermelho de letras brancas e pensamentos desatados.
 Meu universo é de preto no branco, sempre acompanhado de cerveja. And fuck off, se coloco títulos em inglês e nem sempre falo a verdade. No final, quem realmente quer ler as verdades de alguém? Que diferença faz se escrevo sobre o que sinto ou sobre o que invento? É sempre a mesma história, digitada pelos mesmos dedos, criadas em cima da mesma tela branca com correção automática.
 Não se trata de vencer... Não ligo pra esse tipo de vitória. A única vitória que me importa é a de domingo no pacaembú ou a de quarta-feira "fora de casa", e se você me conhece não preciso explicar sobre o que estou falando. Esta aposta trata-se apenas de não deixar que ela deixe seus "pensamentos desatados" de lado por causa da faculdade ou porque já deveria estar dormindo e que está fodida amanhã.
 Trata-se da minha curiosidade incomensurável sobre o que ela deve estar escrevendo. Trata-se de imaginar quais piadas está fazendo, quais palavras escolhe e com quantas metáforas e parágrafos irá enfeitar suas linhas. Trata-se de tentar adivinhar quais são as duas pessoas que vão conversar bem na sua frente...



"Ela caminha pisando em falso. Lento e rápido ao mesmo tempo. Pisa nas poças como se pisa em corações, com força, com temor, com raiva..."

segunda-feira, 13 de junho de 2011

...Uma indiferença quase anestésica.

   "Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor."
  
   Resolvi sair. Sair de dentro destas paredes, sair de dentro deste molde. Escapando por um fresta da minha cerca de arame farpado, por cima dos meus muros repletos de cacos de vidro, escapando dos meus próprios cães de guarda. Tudo o que criei para impedir que qualquer um entrasse sem permissão, mas que consequentemente me aprisionava dentro das minhas celas feitas de desconfiança e amargura.
   É uma estupidez tentar se defender de tudo, se guardar por baixo de um escudo, privar-se das possibilidades casuais. Deixo então, a partir deste momento, que as coisas tomem suas direções, aceitar o que foi, receber o que volta, dispensar o que não me convém. Como tentar negar o que fui e o que me tornei? Como disfarçar os erros que por ventura cometi e os crimes dos quais sou acusado?
   Esqueça... Na verdade, não sei o que lhe dizer. Só espero que me ignore, mesmo que não queira. Desse modo, continuo vendo-te na minha estrada, mas me esqueço um pouco mais enquanto ando e se olho pra trás  vejo-te distante, tua silhueta esmaecendo, sendo apagada. Assim sendo, ficam as cicatrizes mas as dores dão espaço à uma indiferença quase anestésica.
   E isso é tudo. Lembre-se apenas de me devolver as chaves, de tirar teu perfume de mim, de levar tudo que é teu. Tira este teu gosto doce do meu sorriso amargo. Aqui não há mais espaço e o meu tempo já é escasso para discutir sobre o meu fracasso. Cansei de cair no teu laço. Deixe tudo isso ir pois se não nos pertence não voltará e o que for nosso volta atrás de nosso abraço.

"Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?"

 Fernando Pessoa

sábado, 11 de junho de 2011

Even way...

   Eis que aquela velha ferida volta a lhe incomodar. Mas você não se incomoda tanto assim. Arranha-te, viola-te, maltrata-te a pele e no entanto você não pode conter essa vontade involuntária e incontrolável de lacerar a fina camada que lhe protege.
   Deve se lembrar de alguns anos atrás, bons anos atrás, em que abria seus velhos brinquedos ou até mesmo os aparelhos eletronicos antigos, apenas para ver o que havia por dentro daquela embalagem híbrida, daquele modelo padrão, do velho corpo usado e mal acostumado.
   Ou seja, não conseguimos deixar o sangue coagular do lado de fora da pele. Solidificando em um universo desigual. Arrancamos, em plenas unhas, o bloqueio entre o corpo habitual e o corpo desconhecido. Apenas pela emoção de ver uma pequena gota de sangue brotar da pele como um milagre evolucionário. Aquela velha sensação de estar vivo que apenas a simples dor pode lhe proporcionar.
   Não se deixe levar por tão pouco, afinal, ainda estamos amadurecendo em um barril de carvalho, esperando o ponto certo de degustação. Não nos deixaremos ser provados como algo doce demais. Permita que a madeira absorva essas impurezas, permita-se tornar límpido e claro mas não tão simples de ser tragado. Deixe-se envelhecer como deve.
   Se é sangue que procuras, sabe bem onde achá-lo. Ele está derramado pelas ruas e pelas janelas por onde observa o mundo. Está bem perto, por baixo de tua pele, correndo com a mesma pressa desta cidade por entre tuas veias, abastecendo tua curiosidade e teu coração que mal pode acompanhar teus passos.
   Lembra-te dos teus passos? Aqueles que te trouxeram até aqui? Será que deixaste apenas se levar, arrastada por estas calçadas abandonadas até algum lugar que não lhe parece familiar? Será que você sabe onde está pisando, em que confusões anda se metendo? Você é mais nova e inocente do que pensa ser. Eis um segredo que a partir de agora torna-se público: Quanto mais descobre-se menos entende-se.
   Cansamos... Ou devo colocar isto no singular, em meu suposto senso de humildade e apenas dizer que eu cansei desta busca desenfreada por conhecimentos, desta procura descomedida por descobertas? Você pode até tentar me persuadir de que hoje sabemos muitos mais do que sabíamos. Even way, coloco-me em meu absoluto direito de discordar e replicar: Reciclamos de um modo anti-ético e cretino tudo o que alguns falam há séculos. Mesmo assim pensamos ser intelectuais, bem sucedidos e informados. Partilho de um ponto de vista simples, que divide e explica bem a palavra "informação":
- In - Elemento designativo de negação.
- Forma - Alinhamento, modelo, modo, maneira...
Podemos ir até mesmo mais longe e definir "formação" como disposição, constituição, estabelecimento. Sendo assim, continuamos sendo os mesmos primatas vaidosos e egocêntricos que éramos, apenas com ferramentas mais avançadas, mas com o mesmo desejo indiscreto de descobrir e de saber.
   Evolução é um termo delicado para se lidar. Consigo ver no passado um brilhantismo que nos falta no presente. Uma política de exercício ao pensamento escassa em nossas rotinas. Um apego às artes, um culto à singularidade e ao genialismo, uma veneração ao sentimentalismo praticamente extinto hoje em dia.
   Qual é o reflexo do amor, da pobreza e da guerra? Até onde isso nos alcança? Em um tempo de sexo livre, classe média e diplomacia pacificadora, seremos capazes de obter a felicidade que nos prometeram e na qual acreditamos? Seremos capazes de continuar nossa busca por informação, discernimento e livre escolha?

   "Deus existe, mas ao mesmo tempo Deus não existe. O universo é governado pelo acaso irracional e ao mesmo tempo por uma providência com preocupações éticas. O sofrimento é gratuito e sem sentido, mas também valioso e necessário. O Universo é um sádico imbecil, mas também, simultaneamente, o mais benevolente dos pais. Tudo é rigidamente predeterminado, porém o arbítrio é perfeitamente livre..."

Aldous Huxley