"Não me roube a solidão sem antes me oferecer verdadeira companhia."


Friedrich Nietzsche



quarta-feira, 16 de março de 2011

Corinthians - Itaquera / Palmeiras - Barra Funda

   O chão parcialmente seco avisa que a garoa me esperou como uma armadilha do lado de fora, chegando de um golpe de ar úmido, típico das saídas do metrô, ao final da escada rolante. Poucas pessoas no centro da cidade, parece que a pressa deu-se uma folga, fugindo da habitual imprudência que corre por entre as veias e artérias desse conglomerado desorganizado que chamamos de lar.
   O dia começou como os anteriores, o sono bruscamente interrompido pelas sirenes do despertador, o cheiro da manhã nublada, o gosto da preguiça calma e cafeínada, o som de um silêncio matinal e desmotivante como um sol de outono. Não há trânsito na rua e poucas pessoas resolveram enfrentar a manhã de feriado e ressaca, falta coragem nos corações solitários e abandonados dos paulistanos. Caminho à passos longos, evitando os defeitos destas calçadas.
   Parece-me um tanto quanto confuso o desnível desta cidade, os extremos encontrando-se e separando-se em uma esquina, o abismo entre as classes que dividem as mesmas passagens apertadas. O centro da cidade dos pobres diabos, mendigos, bêbados e viciados sem futuro, mulheres enganadas e assalariados sem folga. Tudo isso em rota de colisão com um universo que não lhes pertence um ou dois quarteirões acima. O imenso contraste de classes dividido entre a parte apertada, suja e cinza para os inquilinos e a parte ampla, limpa e colorida aos proprietários.
   Depois de alguns passos largos o cheiro de tudo se mistura: o suor do povo, o mel das frutas de uma barraca, a fumaça dos poucos carros e dos cigarros, o odor dos bueiros e do café barato e doce demais que foge dos bares, misturando se ao perfume das pessoas, árvores e flores que começam a decorar a paisagem conforme vou mais longe. Em pouco tempo o cenário muda, como se uma nova cidade nascesse através de sobras de uma civilização em ruínas. Passo à passo os defeitos das calçadas vão sumindo, substituídos por ladrilhos de um chão limpo, por onde senhoras passeiam com seus cachorros extraordináriamente bem tratados.
 Em ambos os lados erguem-se torres magnificamente construídas, com grandes janelas, sacadas largas e portões imponentes, como castelos. De um desses prédios à minha frente vejo crianças correndo em direção à rua. Dois meninos pequenos de três anos e alguns meses de diferença, de mãos dadas com uma garotinha no meio, um pouco mais velha que os dois. Os garotos vestem roupas bem feitas e passadas, excessivamente formais para garotos tão jovens. Os cabelos claros meticulosamente penteados por baixo do quipá. A menina desfila um vestido de renda com bordados, tão claro quanto sua pele, meias de seda e um sapatinho envernizado, como uma boneca polonesa de porcelana. Mal sabem como teria sido se tivessem nascido há sete décadas atrás.
   Depois de alguns instantes de liberdade, os três são surpreendidos pelo chamado às suas costas. Descendo os quatro degraus da portaria revela-se uma mulher por dentro de um vestido azul marinho com detalhes e costura branca, os cabelos como fios de ouro bem presos sob um chapéu caro e os dedos, pulsos e o pescoço fino coberto por uma variedade de jóias de diversas qualidades. Uma perfeita Demoiselle, provavelmente saída de um filme francês da metade do século XX. Deixo-me distrair com a felicidade ingénua das crianças correndo com suas pernas curtas e pulando aos sorrisos da mulher encantadora. Certamente destoam das crianças pedintes, descalças e famintas que dorme na porta da estação.
   Em uma fração de segundos, flagro-me em frente a fachada do prédio, do outro lado da rua pode-se ver a clarabóia reluzente no telhado, enchendo aquela caixa de concreto e mármore de luz. Este agora é o mundo que eu ajudo a fazer funcionar, o planeta que ajudo a manter em perfeita rotação e translação. Esses estranhos habitantes são meus grandes amigos e companheiros, pobres diabos como eu, com mais ou menos dinheiro do que eu. Chegando e partindo de extremos, assim como eu.
   Vivo esperando por um dia de folga, contando com muitos dias de trabalho de sol à sol, na expectativa de um milagre descer dos céus só pra mudar um pouco toda essa exatidão. Esperando deixar de cruzar as mesmas fronteiras de um só país, de um só estado. Esperando que a garoa me dê uma trégua na volta, que exista um assento vazio, que a fila não seja tão grande, vivo esperando voltar pra casa.

sábado, 5 de março de 2011

Amigos, amigos...

...Discussões à parte!

   É realmente encantadora toda essa arrogância que temos ao falar sobre o que sabemos ou, ao menos, acreditamos saber. Vocifera-se argumentos disparados como tiros de metralhadora em todas as direções. No entanto, quem está com a razão no final das contas?
   Cresci ouvindo o velho cliché: "Religião, política e futebol não se discute!". Apesar de serem os assuntos mais comentados, (com a exceção de conversas sobre o clima, relacionamentos, trabalho ou sua ausência, etc...) continua em cada esquina, boteco, salas de jantar e estar, o velho desacordo de opiniões. Algumas vezes levando à um ponto de ebulição crítico, fora de controle e/ou insensato.
   Começando pela religião. Nunca me fascinou tal ofício, tampouco dogmas e diretrizes. Abstenho-me desta vocação e isso não significa que eu seja um exímio pecador ou descrente. Acredito na livre interpretação e também em minha fé interna, sem intermédios, sem representantes. Se me perguntassem eu diria que meu Deus não possui religião, não mora em nenhum templo e não fala pelas mãos de homem algum que há milénios escreveu o que dizem ser a 'palavra de Deus'.
   Não volto-me contra os adeptos da religião, respeito o direito de exercê-la, contanto que respeitem o meu de abdicá-la. É óbvio que as relações entre fiéis de diferentes vertentes eram, são e, provavelmente, sempre serão estremecidas. Também é evidente que a coexistência é um sonho bem distante entre cristãos, judeus, budistas, mulçumanos, entre outros.
Outra observação cómica é a visão dos fiéis para com os ditos 'heréges', sendo que a palavra 'infiél' soa pejorativa demais. Os mais liberais te vêem como alguém perdido que precisa ser resgatado e ensinado a seguir o caminho certo, por outro lado, os mais radicais, como bem diz o nome, não toleram os não religiosos, julgando-lhes como condenados, por não partilhar da crença que os demais confiam como único caminho... Tudo bem...

   Adiante com a política. Sei o quanto é monótono os discursos dos partidários e políticos, também nesse caso me abstenho. Não sou da esquerda, da direita, tampouco fico ao centro. Novamente, não acredito que estou sendo representado por alguém ou algo. Deixando de fora disso tudo os frequentes escândalos, coloco o dedo sujo na ferida aberta dos que pouco sabem sobre os estandartes que levantam ao brado heróico. Servindo de panfleto de uma causa que não é própria, não é nova e que muitas vezes 'não compra o que vende'.
   Exausto de toda essa troca de acusações e provocações acabo por ver tudo como o mesmo 'filme azul' que apenas troca atores e diretores para uma 'versão vermelha'. E como sempre, na história dessa raça, os oprimidos acabam virando opressores. Mas a verdade é que sempre haverá uma juventude disposta a se agarrar nas ideologias criadas por tiranos, de ambos os lados, que escreveram, discursaram e ostentaram a 'liberdade' aos quatro ventos, como heróis, mas passando por cima de qualquer resquício de liberdade com a justificativa de que "o ideal é para todos, não de um só. Portanto o que tiver que ser feito pra que tenha liberdade, será feito!". Muito bonito de se ouvir, exceto quando quem houve são os que ficaram a baixo da sola desse sonho de liberdade, quem foi saqueado pelo direito de ser livre, que foi torturado pelos libertadores, quando quem houve são as mulheres estupradas por heróis de tantos lados políticos diferentes. Será mesmo que 'os fins justificam os meios'?
   Termino com a política usando das palavras de um dos últimos grandes pensadores: "Heroísmo no comando, violência sem sentido e toda a detestável idiotice que é chamada de patriotismo - eu odeio tudo isso de coração;" Albert Einstein

   E como falar do futebol? Ah, o futebol... Este sim, não falta ao debate jamais. Resultando em grandes desavenças, rivalidades e em casos mais extremos brigas. Desde o seu início europeu, até então um esporte bretão de nobres, aos jogos nas várzeas brasileiras quando imigrantes importaram o esporte, até os dias de hoje como grande espetáculo que movimenta cifras exorbitantes, é sem dúvida um dos esportes mais emocionantes e o mais dinâmico.
   Algumas vezes, a discussão torna-se mais relevante do que a religião ou política, afinal é muito melhor preocupar-se com seu time do que com a missa ou a economia, digo sem ironia alguma. Responda-me se puder: O que seria deste país se não fosse o futebol? Difícil saber ou argumentar. Paixão nacional, ópio do povo, delírio das multidões de torcedores.
   A maioria de toda e qualquer estupidez esconde um lado sensato e admissível. Por exemplo: Há milhares de anos pessoas se matam por praticarem religiões e rituais diferentes; Não é incomum assistir à políticos se esbofeteando, líderes invadindo países, ditadores tiranos dando um 'jeitinho' de se livrar dos indesejados, apenas por divergências políticas. Seria tão absurda assim a rivalidade e violência por parte dos torcedores?
   Alguns dizem que o futebol anestesia o povo, pra que mantenham-se entretidos e felizes, e eu devo concordar. Concordo com o direito de se anestesiar contra a crueldade, despotismo e opressão imposta à um povo cansado de viver como manda o figurino, de seguir as regras ultrapassadas de barbudos velhos, de sempre abaixar as calças para políticos deliciarem-se com suas boas vidas de representantes populares. Se Deus existe e se a regra é clara, termino com apenas um pedido: Negue-me o pão e o circo, mas não me negue o futebol.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Stardust

   Elas surgem aos poucos, quando os olhos se acostumam à falta de alguma claridade relevante do lado de fora de casa, enquanto a pele se acostuma ao vento frio que corta após a chuva de um dia cinza por inteiro. De repente somem, por trás da fumaça negra cuspida por toda a cidade ou através de um ponto cego, mas a vista continua garimpando o brilho claro entre a escuridão.

   As vezes aparecem como reticências, pontilhando este  quadro negro com todos os seus minúsculos riscos de giz, espalhando poeira, raramente riscando e sendo apagado de uma só vez, abençoandos os que mais carecem de sua famosa capacidade de realizar desejos e trazer boa sorte. As vezes giram ao redor desta órbita, como em uma embriaguez de uísque ou gim. Quase sempre ignoradas, pedaços de um infinito, esquecidos entre uma ou outra constelação.

   Tão distantes, que mesmo mortas demoram a se apagar, mesmo vivas costumam não aparecer. Talvez por conta dessa cidade maldita, quase sempre tão iluminada, atrasada e ocupada, desapareçam aos olhos de quem não tem mais vontade ou capacidade de se permitir alguns momentos de calma. Momentos para simplesmente ouvir o som que o silêncio faz, para realmente enxergar essa galáxia de míseras estrelas ofuscadas por toda essa luz falsa e mentirosa.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Our place is right here...

"...you say that nothing changes and everything that you're feeling is very clear..."


Pegue um copo e sente-se! Você não precisa de tanto agora. Isso tudo acaba igual de uma forma diferente. Se não quiser falar, eu vou entender, até porque me cansa as vezes com seu disco riscado. Eu sei que é normal, acaba sendo ensaiado as vezes e mesmo quando dizemos que não, acabamos julgando tudo isso. No final, somos só amigos, certo?
Os melhores amigos são os bons amigos que sabem qual é o momento de beber, o momento de falar e o momento em que os dois acabam sendo permitidos simultaneamente. Não me pergunte outra vez o que é que eu estou te oferecendo. Confie, beba e agradeça ou recuse.
Bons amigos... Elementar, meu caro! Defina-me como quiser, é apenas outro nome. Nomes quase nunca representam ou definem sensações e sentimentos. Bons amigos não são mais velhos, mais novos. Alguns mal se conhecem. Pare com essa mania de concordar, de dizer o que os outros querem ouvir... Seja um bom amigo, não tente ser bom pra mim, não tente agradar ou fingir que entende. Só seja um bom amigo e me leve pra beber uma cerveja longe daqui. Pois bons amigos não são os que precisamos ou queremos. Bons amigos são os que nós merecemos.

"...Everyone want be the only one that everybody see..."

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Como o amor... Talvez.

Se te incomodas, não te satisfaz; Se ainda pensa em tudo aquilo, por que não me procuras? Se a distância amplificou a arrogância e mesmo assim você não sabe se deve continuar, por que não me procuras?
Por que vinde a mim se nada tem à dizer? Apenas respirar o mesmo ar? Profanar o mesmo lar? Por que vens se nada tens à me falar. Se nada mostra-me e nada quero ver?


Não... Você não é mais que um reflexo, mais que um retrato, muito menos que um quadro na parede. Torna-se hoje muito menos do que era ontem. Perde-se pelos dias por andar de alma nua, perdendo se aos muitos, entre prédios e ruas.
Mas tudo bem, agora volta a procurar em outras faces a minha fisionomia, em outros gestos a minha grosseria. Tudo que me definia pra ti, tudo que chamou-lhe a atenção e, em seguida, despedaçou sua consideração, como se o imã que atrái, em um segundo, afastasse tudo.
Não... Você não é o que permite-se ser; não é o que busca ser. Você não é mais você do que eu. Nunca foi perfeita para alguém e nunca saberás se um dia ainda será. De tudo o que diz ser és apenas algo: atriz. Uma atriz de meias verdades, que tenta a todo tempo se definir e se explicar, que está viva, nesse mundo, mas isso não basta.
Mas saiba que não quero nada com tudo isso, acostumei-me com bem pouco. Se não vens, não é porque esqueceste do caminho, mas sim porque te negaste a trilhá-lo. Não me importo com teu destino, tampouco sobre suas escolhas. "Venha quando quiser, ligue, chame, escreva", venha com teu sim ou com teu não. Só não me engane mais com teu talvez.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

I've got you under my skin...

De leve, pouco a pouco, passa queimando. Um calor agradável, tornando-se, traço à traço, em uma dor aguda através dos músculos e tecidos. Liberando endorfina na corrente sanguínea, como um pedaço de chocolate, dominando o amargo da boca, desenrijando as articulações e atenuando o peso sobre o abdómen cansado.

Tudo bem.
'Eu sacrificaria qualquer coisa, seja o que for, para ter você perto de mim'
Em meio ao incomodo sofrimento há uma voz suave, com um bom piano e banda de acompanhamento, tornando a sala branca e retangular, com poucos assentos e aparelhos, um pouco mais viva.
Linhas e traços, em um azul royal, turvam aos poucos seus olhos, mas ela lhe diz: "They Can't Take That Away From Me". Você concorda espremendo os olhos, lembrando-se de relaxar e não demonstrar a dor.
Ella Fitzgerald costumava vir acompanhada de café, meia luz e, talvez, um cigarro, mas não dessa vez. Hoje ela vem só com sua voz, distraindo, dispersando os pensamentos ao mesmo tempo em que Louis Armstrong os junta, como um mosaico de cacos de vidro em sua mente. 

Tem razão, tem razão... Hoje era um dia mais Needles And Pins, ou Should I Stay Or Should I Go Now. No final, você já tem agressividade suficiente pra ouvir Clash ou, até mesmo, a balada dos Ramones. Sinta-se grato por Ella não lhe abandonar.

I saw her today I saw her face. It was the face I love and I knew I had to run away and get down on my knees and pray that they go away. Still it begins. Needles and pins. Because of all my pride the tears I gotta hide...
Come on! Keep that breathless charm!

A dor é repentina, acaba junto com o ruído que hora grita e outrora sussurra. De repente, nota-se que se trata apenas de um arranhão, que deixa-lhe com a duvida sobre sua intensidade ou profundidade e sobre o estranho fato de parecer não cicatrizar, tornando-se de alguma forma visível. No final , esquece-se o sofrimento, a acidez por baixo da pele. Louis lhe diz: "No matter what the future brings as time goes by".

All right... All right... Keeps rainin' all of the time

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sweetness...

Percebe-se agora o desejo indiscreto e imprudente de saber o que há por baixo deste véu. Percebe-se esta nova curiosidade irremediável, este interesse inexplicável em descobrir o que há por baixo desses arranhões, lacerando-os até torná-los feridas abertas que não se deixam cicatrizar, para assim revelar seus mistérios tão impregnados entre a carne e ossos, protegidos por uma pele fina.

Sente-se o gosto doce de uma novidade surpreendente, um sabor tão irresistível que ignora-se subitamente os avisos e conselhos dos que não se arriscam a senti-lo. Perde-se o bom senso atrás das respostas que queremos, para as perguntas que muitas vezes já conhecemos. Embora as vezes não seja tão doce assim, no final, o gosto sempre dura pouco e volta-se a  procurá-lo em um novo segredo que interesse ou satisfaça o desejo incomensurável de experimentar o novo.

Lembra-se de todas as dificuldades enfrentadas para tê-lo quebrando-se por entre os dentes, em centenas de pedaços que deixam sua impressão na boca conforme são mastigados. Lembra-se também de não permitir que a dificuldade se transforme em orgulho ou em impedimento absoluto, pois o difícil torna-se interessante, porém torna-se cansativo quando o difícil pensa que é impossível.

Enfim, corre-se atrás de conhecer o que a discrição tem a ocultar. Arrisca-se a saber e experienciar a sensação do desconhecido, aparecendo por trás das cortinas, entrando em cena. Permitindo que essa curiosidade irresponsável tome conta de seu apetite e anseios. Apostando suas últimas fichas de coragem em um destino inesperado, admirável ou arrebatador, apenas para sentir a verdade descer-lhe pela garganta, mesmo que não seja tão doce. Mesmo que o seu gosto não dure tanto. 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Letras velhas em uma folha amarelada...

Café as quatro da manhã? Qual é o problema?
Desenho mulheres estranhas, só pra matar a vontade de fumar. Algumas vezes é mais fácil, outras vezes parece que não vou aguentar. Tanto faz a ordem de tudo... No final, eu nunca pareço satisfeito.

Há anos eu não escrevo nada, nenhuma linha, porra nenhuma. Devo ter me esquecido. Devo ter esquecido de você, esquecido de mim. Devo ter esquecido de me lembrar...

Devo ter me cansado dessa rotina, de toda essa monotonia, cansado de escrever sobre o meu cansaço. Esse cansaço vagabundo de quem não tem porque se cansar...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Amém...

É tudo uma questão de paciência. É uma questão de ter a sorte de estar no lugar certo e na hora certa para assistir um grande espetáculo, direto das primeiras fileiras desse teatro construído por mentiras e alucinações. Ela não se deixa fascinar por suas atuações, ela mantém-se à distância, governando seu estado de espírito afastada de qualquer revolução ou motim.
Ela continua mantendo sua irrefreável política de pão e circo, aplicando seu famoso status-quo pra ter tudo debaixo de seus sapatos, todo seu universo nas rédeas, bem controlados e funcionando direito.
Você se contenta, afinal ela mata sua fome, não sempre que você quer ou precisa e sim quando você já não acha mais suportável.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai nossas ofensas..
Ela lhe distrai quando precisa te enganar e faz isso bem. Ela gosta da sua cidadania e de que você escute e aprenda o que ela te ensina, cumprindo suas leis, honrando suas regras. Afinal, você daria sua própria vida à ela em qualquer guerra, para proteger as fronteiras do corpo que só você crê possuir autorização para ultrapassar. Proteger os recursos naturais que só você crê poder extrair. Escreve hinos em sua homenagem e poemas quando, por ventura, sente-se exilado de sua companhia.
No fundo, por mais que faça, sabes bem que ela lembra-se de ti quando precisa e esquece-lhe com a rapidez de um piscar de olhos, no instante de um pensamento. Mas é nela que moras e procuras abrigo. Pouco importa os protestos por aumento de atenção ou reforma de benevolências, ela sempre dá de ombros, reprimindo suas reivindicações com um olhar com o peso dos escudos e armas de toda uma tropa de choque. Mas quando pára pra pensar, você sente-se grato, santificando seu nome, indo até seu reino, fazendo sempre sua vontade, assim na terra como no céu. Perdoa suas dívidas, deixa-se cair em tentação. Conforma-se e agradece, como um escravo alforriado que não se vai, pois não sabe mais viver em liberdade.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Get out...

- O que há de errado contigo? - Ela lhe perguntou - O que mais você quer, porra? Quer que eu finja que eu não sei o que você faz?
- Não tenho o que lhe esconder, só não preciso te mostrar. O que você acaba vendo não é meu problema. Só não vou ser hipócrita dizendo que não quero mais nada, que estou satisfeito com tudo isso. O que você pensa que existe entre nós, guria?

Ela agora encara seu rosto mal barbeado e inexpressivo, cerrando os dentes e piscando compulsivamente os olhos, borrando de leve o contorno delineado em preto, provocando uma vermelhidão irritada em suas escleras e uma dilatação instantânea de suas pupilas.

- Guria? Você não se enxerga mesmo! - Ela responde em um suspiro de indignação - Age igual a um menino. Um menino mimado. Pensa que pode ir atrás do mundo e voltar correndo pra um abraço quando as coisas que você quer não acontecem? Você é um moleque!

Ela tinha razão, pelo menos um pouco, afinal era o que ele vinha praticando há algum tempo; a busca desenfreada pelas outras alternativas convenientes da vida e do mundo. Ele acreditava que navegar era mesmo preciso e que ancorar-se em um só porto, por mais tranquilo e confortável que pudesse ser, era um desperdício de tempo e vontade. Ele havia ponderado que o seu desprendimento não era uma necessidade, apenas um caminho natural que foi sendo traçado. Não precisava ir muito longe, nem abrir estradas e não o fez para enfrentar algo ou alguém, o fez apenas pra descobrir até onde iria chegar o seu desbravamento quase 'bandeirante'.

- Não devo e, na verdade, nem conseguiria tirar sua razão. Não me preocupo com isso, nem com o fato de parecer infantil...
- 'Parecer' não! Você é infantil! - Ela interrompe, quase atropelando os dentes com a língua na tentativa de atingi-lo com uma expressão de efeito - Eu só queria ter você de um jeito simples e normal como a maioria das pessoas fazem, mas você é um menino, como eu já disse, que larga os seus brinquedos correndo, para ir comer um doce ou jogar bola. Mas eu não, entendeu? Eu não vou ser seu brinquedo te esperando no quarto, jogada no meio da bagunça que é a sua vida! Tá me ouvindo?
- Tô sim...
- Então olha pra mim quando eu falo com você! Chega de ser criança. Hoje eu quero tentar falar com um homem!
- Falar? Você já ultrapassou há muito tempo o tom e volume de uma fala com essa sua histeria. Quer que eu seja seu? Como pretende fazer isso? Vai me amarrar na sua cama? Não sei se consigo aguentar isso, não sei se consigo ser só de você, ou só de qualquer outra.

Agora um fraquejo toma conta do rosto dela, invadindo a boca entreaberta e indecisa, as narinas mais abertas do que de costume, as olheiras emoldurando seus olhos castanhos subitamente desistentes e indiferentes, contrastando com os movimentos, aparentemente, involuntários e quase eufóricos de suas sobrancelhas. Ele não demonstra nenhum sentimento, nunca aprendera à fazer rodeios para dizer a verdade, quando esta fosse necessária. Limitava-se à engoli-la quando julgava o momento inadequado ou a verdade crua e demasiada de mal gosto.

- Escuta, doce. Eu gosto de você, mas...
- Não me chama mais assim. - Ela fala como se tivesse engasgado-se com a frase - Por favor!
- ...Eu gosto de você mas... Você tem os seus planos e eu não tenho os meus. Fico feliz por você ter essa habilidade de organizar sua vida, mas pra mim isso é difícil, é diferente. Não tenho como tentar fazer tudo do jeito que for melhor pra você ou pra nós, não agora. Tudo tá acontecendo muito rápido.
- Você está tentando justificar seu comodismo, seu conformismo. Você espera que eu aceite você saindo por ai, com aqueles bêbados que andam ao seu redor e com aquelas putinhas que se esfregam em você só porque sua música toca na rádio e quando você voltar, se você voltar, eu estar aqui presa pela realização dos seus sonhos e a desistência dos meus?
- Eu não espero nada! Você não precisa aceitar nada, muito menos fingir que não viu e não sabe. Não te prendo aqui! O que lhe prende é a sua vontade de ter comigo o que você arquiteta pra você. Mas eu não sou um projeto, doce... Eu sou uma pessoa, uma realidade, uma vida que esbarra em outras, todo santo dia. Não é preciso ser um gênio pra saber que eu vou me interessar por outras mulheres, também não é preciso ser um padre pra tentar me convencer que isto é errado e imoral. Nada disso tem relação alguma com meus amigos ou quem vai nos shows, se as coisas deram certo pra mim eu preciso aproveita-las, pois não sei quanto mais elas vão durar.

Ela não diz mais nenhuma palavra, tira a chave do apartamento de dentro do bolso de sua jaqueta jeans e entrega-lhe, vai até o quarto e pega sua bolsa, recolhe dois ou três livros da estante, alguns cd's e sai, batendo a porta às suas costas. Desaparece no corredor do prédio, desaparece do labirinto confuso e enigmático da rotina que a nova vida de rockstar dele se tornou. Desaparece até mesmo das poucas músicas que ele compôs pensando nela. Desaparece levando seu cheiro de perfume não tão caro, levando seu gosto de não tão suficiente. Desaparece nas primeiras horas dessa nova década.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Bebendo vinho...

Parece que tudo está bem, mas por mais incrível que pareça, ele acaba sentindo-se entranho sentado sozinho no sofá quase rasgado de sua sala de estar, com uma garrafa de vinho aberta, uma taça quase cheia e uma maço de cigarros ao lado. Não estava tão acostumado a essa solidão repentina. Eis que lembra-se de uma coletania do Sublime e aumenta o volume pra tentar afastar a solidão dessa sala vazia. Procurando companhia na voz de Bradley James Nowell, ecoando em suas reverberações. Deixando-se levar pelos ecos do dub, quase dançando sozinho por dentro e absorvendo os ecos, sintetizadores ou até mesmo as mudanças leves ou bruscas de um reggae para um hardcore.
Percebe que já é véspera de ano novo, tenta lembrar-se dos bons e maus momentos deste ano, mas nunca foi bom demais para isso. Acaba percebendo que é só mais um dia a mais e que após toda a festa, voltará a viver a mesma vida, como em um carnaval fora de época.
Tudo bem...
Sua garrafa de vinho ainda está na metade. Pergunta-se se existe alguma outra forma melhor para terminar mais um dia de trabalho senão abrindo um Cabernet Sauvignon e fumando seus últimos cigarros. Por mais incrível que pareça a solidão da casa lhe faz bem. uma liberdade quase intestável, quase intangível.
Seu sound sistem grita a canção What I've got enquanto ele se lembra de tempos atrás de quando andava de skate, encarava qualquer 'roda punk' e bebia ou usava qualquer coisa que lhe ofereciam...
"É meu amigo, o tempo passa..."

Enfim, ele resolve abandonar sua taça quase vazia e ir dormir. Talvez sonhe com ela, com sua antiga banda de Ska ou com seu time sendo campeão. Tanto faz...
Afinal, é véspera de ano novo e talvez não há nada melhor pra esperar nesta noite, a não ser uma boa noite de sono, talvez...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Talvez isso seja sua culpa!

-Acho que me saí bem - respondendo a si mesmo - Definitivamente, me saí bem!

Algo havia mudado, sem muitas razões ou causas aparentes, mas definitivamente o curso deste rio havia se desviado. Perdera alguns de seus afluentes que acabaram secando, mas tornou-se mais largo, mais fundo e, não mais, tão sinuoso.

-Acho que sim. - ela disse-lhe - Pode ser que você tenha razão, mas o que tudo isso quer dizer?
Ele tenta absorver a pergunta e formular uma resposta que não pareça estúpida ou pequena demais para encarar a questão. No fundo, sabia que ela era parte fundamental daquela mudança, mesmo chegando depois de muita água ter passado por baixo da ponte.

-E então? - ela insiste.
-Não sei, doce. Talvez seja algo natural, uma necessidade repentina por equilíbrio... Não sei!

Talvez não fizesse tanta diferença, o futuro continuava sendo uma incógnita, mas agora ele tinha ela por perto, por mais que as vezes fingisse que não a tinha e até chegou a pensar que não a teria. Mas agora ele sabia.

Seria uma chance de tentar fazer algo direito, que realmente desse certo, que representasse algo?

- Não te entendo, sabia?
É claro que ela não entenderia, aliás, como poderia?
- O que eu posso dizer? - ele responde, ou tenta - Talvez seja felicidade, talvez seja a nova rotina, talvez seja você... Talvez isso seja sua culpa!

Ela enrubesce, talvez não acreditasse ou não esperasse fazer parte disso mas no fundo, ao menos, desejava ouvir isso. Ela parece feliz também, sempre o encarou nos olhos com um jeito encantador, um certo brilho entre o infantil e o diabólico. Sempre o beijou com um jeito de menina e de mulher. Hoje ela seria anjo ou demônio?

- Porque eu? - questiona com um sorriso bobo e retruca com uma provocação esperta - A gente mal se conhece, quer dizer, a gente se conhece há pouco tempo.
- Desde quando isso faz diferença? Não devíamos mensurar isso pela intensidade e não pela duração? - Ele pergunta respondendo.

Ela não precisa responder. Os dois percebem quanta verdade havia ali e ambos consentem. Então, de repente, um breve momento quase constrangedor de silêncio, ela dá um passo à frente, beija-lhe na boca e lhe abraça, encostando sua cabeça no peito dele.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Dancing with myself...

Ela abre os olhos, continua com a boca perto da minha, me olha e diz que quer dançar...
Tudo bem, temos tempo pra tudo nesta noite. Mais uma cerveja, mais até do que eu posso pagar...
Tudo bem, acaba valendo a pena ver ela dançando com seus amigos, divertindo-se de longe. Talvez ela não se importe tanto, afinal é só diversão, ela tem razão.

Me flagro pensando na possibilidade de atrapalhar sua festa, calar aquele sorriso com a minha boca. Acabo hesitando e até me permito sorrir por dentro assistindo à sua felicidade. É perceptível que ela, às vezes, acaba encontrando meus olhos estacionados nela e me encara de volta por um momento. Mal chego a sentir ciumes do encantador charme com que ela dança com qualquer rapaz desajeitado.

Novamente, tudo bem.
Ela não é minha e nem de mais ninguém, não nesta noite. Não há motivos pra antecipar ou atropelar nada agora. Vou sair pra fumar um cigarro do lado de fora e conversar um pouco com as pessoas que estão lá.
E ela?
Deixe ela dançar...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

She is a punk rocker...

Últimos passos da rua até a portaria, um 'boa noite' cansado para o vigia noturno e mais alguns passos até a minha porta. Desviro duas vezes a chave, abro a porta e sinto o cheiro da casa, nem tão bom ou ruim, apenas familiar...

Ouço uma torneira ligada e uma voz vinda da cozinha, cantando qualquer coisa ininteligível, áspera mas doce ao mesmo tempo. É a voz dela. Tenho a impressão de conhecer a harmonia da música e não a interrompo, a não ser por outro boa noite cansado. Vou ao quarto onde deixo minha jaqueta em qualquer canto e sento na cama pra desamarrar as botas.

Enquanto isso, a canção assume tons mais agressivos em um inglês sofrível, com palavras que parecem ter sido inventadas, seguidas vez ou outra por um 'abrasileirado' whatever, fuck off ou I don't care, que eu não sei bem se ela sabe o que significa. Porém o refrão tinha sido bem decorado, em um inglês fluente e convicto, que sempre se amplificava dando sentido a frase: You only try to put me down!!!

Acabo não sabendo como interpretar ou definir as razões por ela cantar em alto e claro o refrão, como se fosse a pressão correndo pelas cordas vocais usando a boca como válvula de escape. Mas, agora parado na porta da cozinha, observando-a lavando a pouca louça, dando pequenos pulos de uma euforia inexplicável e de vez em vez tomando goles na lata de cerveja que deixara em cima da pia, ao seu lado, eu vejo a leve brutalidade que ela carrega por baixo de uma camisa social que me roubou há algum tempo atrás,  antiga e grande demais para ela mas que a deixava perfeita quando a vestia e andava pela casa.

Olhando para ela e ouvindo-a gritar as palavras de ordem desse punk-rock antigo, consigo sentir a rebeldia que corre por seus ossos e dentro das suas veias por baixo de sua pele fina e isso me faz bem, isso me faz sorrir...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Por que é proibído pisar na grama?

"Acordei com uma vontade de saber como eu ía e como ía meu mundo..."
Jorge Ben

Havia sonhado na noite passada. De fato, não lembrava os detalhes, recordava-se apenas de acordar sentindo a falta de algo.

Era uma garota, ainda lembrava-se de pedaços, de alguns sorrisos. Teve a absoluta certeza de que nunca tinha a conhecido antes, quando acordou, nem mesmo em sonhos. Talvez tenha a visto em algum vagão do metro, em algum bar conversando com as amigas ou em algum café lendo um livro velho qualquer. Não fazia tanta diferença. O que tinha certeza, é que gostava bastante dela, ao menos na confusão ludibriante daquele sonho. Tinha a certeza de que ela era o centro das suas atenções e que não precisava de um nome, estavam juntos, isso bastava.

Tinha as mãos finas e macias, lembrou-se de que segurou-as quase forte demais para senti-las. Dobrou-lhe os dedos e os pressionou com a palma de sua mão, desejando o estalar das articulações de suas falanges. Ela pressentiu a intenção e pediu lhe sorrindo para que não o fizesse. Tarde demais.

Foi fácil, mais do que imaginava. Os dedos não apresentaram nenhuma resistência à pressão, dobraram-se de leve e estalaram-se, um após o outro, em um movimento delicado, provocando um riso nervoso e íntimo nos dois. Ela era sua. Você tinha certeza disso.

Em um instante não havia mais vozes, apenas das outras pessoas, amigos coadjuvantes actuando no seu sonho. Ela era a única estranha, mas a única que importava-lhe. Lembrou-se depois de ter sentido seu cheiro, isso obrigou-lhe a render-se a lembrança que venceu suas pálpebras fechando-as de repente. Era o perfume que os anjos deviam ter. No mesmo instante, chegou a sentir o atrito dos lábios dela nos seus, das línguas libertando-se do céu da boca. Não se importaria em nunca mais acordar. Aquela estranha era a pessoa que mais parecia confiar em ti.

Acontece que os sonhos lhe proporcionam doses artificiais do que não consegue em sua vida de olhos abertos, pelo menos não o bastante. Então, levantou-se da cama com um vazio. Com a saudade do que você sabe que nunca teve, uma paixão involuntária por aquela garota que você não conhece, pelo tempo em que dividiram uma ilusão. Andou por algumas calçadas, cantarolando uma canção de Jorge Ben, gravada em 1976. De algum modo a música lhe permitia fatias de memórias. Ponderou por um tempo sobre o absurdo de ter se apaixonado por uma mulher de mentira, que visitou sua cama indiretamente, que lhe fez sentir - quimera - esta falsa felicidade com um toque, um encontro de bocas. Pensou em voltar a dormir, mas sabia que ela tinha ido e que talvez voltasse pra uma outra noite, talvez, qualquer dia desses.
Arrivederci!

"Preciso às vezes ser durão, pois eu sou muito sentimental, meu amor... Preciso de carinho, pois eu quero ser compreendido, preciso saber que dia e hora ela passa por aqui e se ela ainda gosta de mim..."
Jorge Ben

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A love supreme...

Ela senta-se ao meu lado, encostando seu braço no meu enquanto vira as páginas do livro de Caio Fernando Abreu que acabara de comprar, chamado Fragmentos. Por alguns instantes consigo ouvir o som que o resto do mundo faz quando ela se cala, mas em um piscar de olhos está ela falando novamente sobre algum conto chamado "Os sapatinhos vermelhos" ou "Paris não é uma festa".

Tanto faz...

Ontem meu time empatou e isso me importa mais agora do que as semelhanças e diferenças com Cecilia Meireles ou Gabriel Garcia Marquez, mas é disso que ela gosta. Torcemos para times diferentes, times rivais, pra ser mais claro. Ela interrompe sua retórica apenas para falar do absurdo que era o meu mal-humor por causa de um jogo, ainda falando sem tirar os olhos do livro que ainda cheira à papel novo.

Pra variar, eu não respondo. Levanto do sofá, desvio-me das pernas dela e vou até a cozinha. Um copo americano, quatro ou cinco goles de café, nenhuma colher de açúcar e vou para a janela da sala. Escolho um cigarro no maço, levo-o até os lábios e acendo-o. E ofereço-a a magnífica oportunidade de falar mal das minhas escolhas e atitudes, ainda sem me olhar.

"Ah...Se ela soubesse."

Não faço questão de discutir sobre qual dos dois tem razão, acredito que essas acusações são traços definitivos e irrefreáveis na personalidade dela, além de uma característica bem feminina. Vou até o rádio aumento o volume com a sorte de pegar "A love supreme" do Coltrane à tempo e viro-me e, de frente para ela, encaro-a como sempre faço e cada vez mais transformo isto em um hábito pós acusação. Ela me olha por cima do livro, com aquele sorriso de incredulidade, que rápido amarela-se e se transforma em uma indiferença rápida e quase discreta. Nunca se deixa perder tempo demais me olhando, obriga-se à distrair-se com qualquer coisa por perto.

De um verso para outro, seus lábios e dentes acabam cedendo à língua e cordas vocais, e depois de alguns momentos de sol e silêncio, ela traz de volta uma tempestade de palavras, agora largando o livro e voltando-se directamente para mim.

Quase sempre é a mesma história: Eu bebo demais, estou fumando muito, quase nunca falo sobre o que ela quer falar, que essas coisas acabam tirando o sono dela e que ela não sabe se eu sou a mesma pessoa que conheceu. Mas como poderia ser?
Engraçado é que ela não grita, como a maioria das outras costuma fazer. E logo põe-se de volta à sua serenidade comum e encantadora, rindo com seus dentes certos e brancos. Acaba logo com sua tempestade de verão.

No intervalo de três cigarros, vem até a janela e me abraça pelas costas, com as duas mãos no peito e com a cabeça encostada bem atrás do meu coração. Fica calada por cinco ou seis segundos.

- Eu te odeio, sabia? - Ela me pergunta num misto de riso e interrogação. - Eu te odeio.
- Sei - repliquei depressa. - foi a primeira coisa que soube quando te conheci!

Trago-a para minha frente deixando-a debruçada na janela e estendo-lhe o cigarro, que ela traga uma vez e me devolve. Eu penso que estaria disposto a morrer por ela à qualquer momento e por qualquer motivo, qualquer um. Mas também penso em como é bom estar vivo pra sentir o cheiro dos seus cabelos. Encosto o queixo no ombro dela que se retrai de leve com o espetar dos fios de barba.

- Eu também te odeio! - respondi devagar. - Odeio ainda mais  não conseguir te odiar mais ainda, Doce.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

alto-mar

Acontece que, por trás de uma nuvem néon, destaca-se uma parte de sol. Então vocês decidiram sair para dar uma volta, ela queria comprar alguma coisa, qualquer coisa que lhe fizesse gastar o resto do seu salário. Você só pensava em andar um pouco, fugir dessas paredes.
Ela logo se interessava por algo enquanto você a seguia pelos corredores de barracas, desviando vez ou outra de alguma criança correndo, esbarrando vez outra em algumas outras pessoas que resmungavam xingamentos pelo esbarro ou pela fumaça do cigarro enquanto você faz que não ouviu.
Você continua seguindo os passos dela por entre a praça lotada, mantendo uma distância que lhe oferece imunidade ao seu perfume mas por outro lado, aquela visão dela andando aos pulos, de estande à estande, experimentando doces e brincos baratos, vez ou outra colocando um anel no dedo anelar, parece queimar-lhe os olhos. O cheiro do lugar vai se transformando em uma feijoada de aromas: incenso, pipoca, amendoim, tinta óleo e pastéis, tudo isso misturado à maresia.
Você não morre de amores por ela, quase nunca presta atenção no que ela diz embora ouça, com um perceptível desprezo, o que ela tem à dizer sempre que ela coloca-se a sua frente. Ela gosta de você por isso. Não mostra nem surpresa quando ela parece saber do que fala, nem admiração quando ela começa seu monólogo à respeito da sua predilecção por Ella Fitzgerald à Billie Holiday. Você dá de ombros, afinal não morre de amores por ela.
Ela tem dois ou três anos à menos, estuda fisioterapia e estagia em uma clínica por meio período. Você não sabe se tem ou não ciúme de quando ela sai com os colegas do curso para beber, de quando aparece com um vestido ou decote um pouco mais curto, de quando troca mensagens na internet ou celular com outros rapazes, no final ela não é sua e, mesmo que quisesse, seria difícil fazê-la aceitar um compromisso à sua maneira.
Você gosta do sexo que fazem, de sua infantilidade. Gosta de quando ela geme baixinho, quando passa os dedos pelos seus cabelos. Às vezes, se flagra pensando no calor no meio dos seios dela, lembra-se dela saindo do banheiro só de roupa íntima e com a toalha enrolada na cabeça e, agora sim, se permite um sorriso de nostalgia. Ela continua andando em pulos à sua frente, agora com um algodão-doce nas mãos, olhando para trás e dando gargalhadas de menina, colocando punhados do doce na ponta da língua e deixando o açúcar dissolver por si só.
Ela gosta de quando você deixa a barba por fazer e não precisa dizer que ela gosta do seu jeito. Ela planeja um futuro para vocês dois, você não gosta mas não a impede de sonhar, você sempre deixa que ela fale, embora às vezes não responda e limite-se apenas a fazer suas conhecidas expressões manuais ou faciais. Ela não sente falta de uma resposta na maior parte do tempo, afinal ela quer mesmo que você escute, não que opine ou aconselhe e na verdade ela também não morre de amores por você.
Ela pára por um momento diante das escadas no final da praça e observa o contorno da orla da praia iluminada pelas luzes de postes, carros e prédios. Já é começo de noite, apenas um filete laranja de nuvem permanece no céu azul indigo. Você continua mantendo distância, agora parado, com o final de outro cigarro cuspindo restos de fumaça entre os dedos, observando-a de costas.
O vestido de flores e os cabelos acastanhados balançam na sinfonia de ventos que vêem do mar trazendo pequenas ondas de espuma e salpicando sua pele. Uma escuna passa devagar, bem perto, com o brilho de centenas de pequenas lâmpadas amarelas e vermelhas, ela se distrai com as luzes da embarcação e não percebe a sua aproximação.
Ela cruza os braços, esfregando-os com as mãos numa tentativa de diminuir um pouco o leve frio que o oceano traz. Você tira seu casaco e coloca sobre os ombros dela, assustando-a um pouco e acaba perguntando a si mesmo se aguentaria aqueles sorrisos dela, de lábios fechados e com o lado direito mais puxado que o esquerdo, espremendo de leve os olhos cor de mel que brilham com as luzes da escuna. Acaba perguntando-se quão é necessário ou se é mesmo preciso amar alguém para ficar junto dela. Talvez não tanto, talvez não muito, talvez não seja necessário ou preciso morrer de amores, pois este é seu jeito de amar.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Non Sense...

...Ela disse às seis, no mesmo café em que se viram da última vez. No entanto, o ponteiro do relógio acusava seis horas e quarenta e cinco minutos de atraso, café e idas até a calçada para fumar. A nova lei anti-fumo não chega a lhe incomodar, aliás, foi em um 'fumódromo' que você a conheceu e permaneceu ali mesmo depois de fumar, ouvindo ela dizer sobre "a merda que é um viciado" e aquele discurso bem ensaiado sobre parar de fumar.
Já começava a se acostumar com a idéia de que ela não viria, enquanto tragava os últimos goles do café frio que lhe sobrava na xícara. Você abre o jornal amarrotado, corre as linhas com os olhos, analisando apenas manchetes, filtrando frases até chegar à página dos quadrinhos e  palavras cruzadas e resolve decifrá-las. Chama a atenção de um garçom com um gesto, solicita mais uma xícara e uma caneta disponível qualquer, o rapaz prontamente assente trazendo, com estranha rapidez e cortesia, o café e a caneta.
Então põe-se aos obstáculos, não antes de ler os quadrinhos e sorrir unilateralmente com uma tira do célebre Charles Schulz, criador do 'Snoopy', em que os personagens Charlie Brown e Lucy se encontram em um diálogo sobre o futuro:

Charlie Brown: O futuro me assusta!
Lucy: Não vejo porque... Você é jovem, cheio de vida... Provavelmente vai viver por mais sessenta anos!
Charlie Brown: É isso que me assusta!

Eis que ao início das respostas, ela faz-se visível através do vidro da cafetaria, tentando vencer o vento e o frio que faz do lado de fora. Um senhor, de saída, faz absoluta questão de lhe dar passagem, não só por simpatia, mas também por uma oportunidade de tentar ver algo que escape aos agasalhos dela. Ela estica o pescoço, procurando sua mesa, enquanto se ajeita dentro do sobretudo e logo após esfrega as palmas das mãos afim de esquentar-las. Encontra então a mesa em que você a esperou por cinquenta e sete minutos.
Põe-se a murmurar algumas desculpas sobre o trânsito, o frio e qualquer outra coisa. Você contenta-se em uma espiada por cima dos óculos, erguendo uma sobrancelha em sinal de indiferença.
Então, como a sirene de uma ambulância em busca de um acidentado, ela começa a falar de tudo, querendo dizer nada. Mal respirando entre as pausas quase inexistentes, atropelando o que dizia para pedir um macchiato, bebida que há pouco conhecera e a qual se declara imensa apreciadora. Ela freia a língua por um instante e depois de perceber-lhe atento ao temporário desafio de encontrar as definições das palavras, resolve te perguntar o que havia acontecido.
Com a mesma indiferença de antes, você sussurra uma resposta qualquer, o que sempre a deixou revoltada. Volta a olhar ao redor e, como se fosse possível mudar de humor em um segundo, pergunta se podem conversar do lado de fora para que possam fumar enquanto falam, ela aceita relutante, resmungando novamente sobre o frio que faz hoje... Do lado de fora, perto da esquina da Haddock Lobo com a Avenida Paulista, pode-se ver as luzes dos prédios, antenas e carros. Você encara os olhos dela por um tempo enquanto ela tenta saber o que aconteceu...

 "por quê você está tão diferente?".

Teria mesmo algo fora do lugar? Teria mesmo algo acontecido? Qual é a necessidade de saber tudo ou como as pessoas se sentem? Não seria mais fácil aceitar que algumas pessoas não sentem a mesma necessidade de falar sobre tudo que dá errado ou apenas não dá certo? Certamente não parecia tão simples para ela. Ela era do tipo que fazia de tudo para te deixar louco, para que ela não parecesse tão fora de si. Certa vez, você teve a brilhante idéia de discutir sobre argumentação, assunto qual ela nunca deu o braço a torcer e por mais que você não admitisse ou tentasse negar, no fundo sabia que ela era uma grande argumentadora, possivelmente uma argumentadora involuntária. No entanto, faltava-lhe a noção básica de que não era necessário mostrar que estava certa para argumentar, mas sim que os outros estavam errados...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

15/02/2008 - 10/11/2010 O sexo do calendário...


Não é mais possível descobrir o que está errado talvez porque tudo esteja. Novamente, sua mente lhe prega peças. Gritos no silêncio noturno: o velho som da calamidade, o expresso para o inferno chegando quando você está amarrado nos trilhos.

Você sente. Como um sussurro planando na atmosfera dos ouvidos. Você se sente como um inseto dentro de um vaso sanitário. Seu futuro é uma eterna e escorregadia descida e alguém pode despejar algo, um tanto quanto desagradável, a qualquer momento.

“Foi bom pra você?”

Você vê a luz e luta para sair. A salvação está logo adiante e quando se consegue alguns momentos de alívio, alguém dá a descarga. É tão típico... Você se afoga em um mar. Um mar de medo, ódio e frustração.

“Aja como se estivesse tudo bem!”

Se você parasse para admitir talvez as coisas ficassem mais fáceis, mas você está muito ocupado tentando manter a cabeça fora da água. Enquanto o seu pequeno bote de emergência afunda rapidamente. O único jeito de flutuar é tapando os buracos com explicações ridículas e torcer para não ser levado pelas ondas de culpa. Nadando em círculos, voltando ao mesmo drama.
“Parece que você se perdeu, marinheiro!”

Ora, ora... Que magnífico dia para morrer. Apenas outro dia, transando com o calendário. Às vezes, a pressão momentânea é sufocante, é como se você se persuadisse a agir
 
Ah... O desespero fluindo nas veias. O desalento do corpo frio e o cansaço em contraste com a adrenalina, a emocionante colisão com o perigo.

“Esqueça, meu amigo. Vá dormir!”

Você precisa de alguns tragos e goles. Você precisa do doce toque cancerígeno e fatal, dos lábios dela.

[Elementar, meu caro. Elementar.]

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

21/07/08 - 08/11/10

É a sua vez, então você beija sua mão fechada e gira os dados por entre seus dedos em chamas. Você imagina, talvez seja mais que imaginação, na verdade, você tenta manipular o destino. Dá uma ultima tragada no seu cigarro, enquanto todos os olhos te golpeiam. Fecha os olhos e sente os dados pegarem fogo como um palito de fósforo aceso dentro da sua mão.

Você está realmente pronto pra ganhar? Sabe qual o preço a pagar se não estiver? Você sabe, sabe muito bem disso. Mas não é o que te importa agora, certo? Você joga os dados e apenas assiste o destino acontecendo bem na sua frente e é como presenciar um milagre. Mas agora tudo o que você pode fazer é esperar. Esperar e sussurrar o seu número da sorte: Sete! Um “três” e um “quatro”. Sete, você precisa apenas de um maldito sete, que o maldito três e o maldito quatro fiquem para cima para que você possa beber seu uísque, feliz!

O dado cai e colide contra o tecido verde da mesa, volta ao ar, rodopia e colide outra vez, volta à mesa e resolve ficar nela desta vez, suavemente, como se dormisse no veludo. A atmosfera em volta da mesa te sufoca. Homens de gravatas italianas com garotas vinte anos mais jovens no colo, bebem Bourbon, fumam cigarrilhas e pagam Martinis e Cosmopolytans para as moças. Mas todos permanecem atentos, como se pudessem mudar os resultados.

É quando a sorte invade o salão, bebendo cerveja, pois não liga se parece vulgar ou não. Vulgar é viver de mascara, fingindo moralidade e integridade deixando mulheres e filhos em casa pra ir ao puteiro pra se sentir capaz, homem ou algo que o valha. A sorte então senta-se ao seu lado e coloca em sua mão, mais do que uma oportunidade, mas sim uma escolha. Não se engane, você tem sim uma escolha, ou tinha. Mas com absoluta certeza teria se tivesse escutado a voz dela em seu ouvido. Agora é só você e o destino, você e os olhares dos donos da verdade. Agora é só você, apostando até o que você não tem pra tentar ganhar o que disseram que você precisa.

André Rossetto.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Soneto à solidão

Proibiste que a minha voz saísse
Como se pudesse me emudecer
Como se pudesse me ensurdecer
Evitaste, ainda que eu te ouvisse

Negaste-me o teu pouco veneno
E recusaste-me esta tua doença
Envolveste-me com a tua dança.
Enganaste-me com olhar sereno

Foste além de onde o céu é mar
De onde esta culpa é absolvição
Bem de onde este silêncio é voz.

Chegaste onde não dá pra voltar
Pra entender que a nossa solidão
É ruim demais para seguir à sós.

André Rossetto

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Tudo estava calmo...

...Calmo como uma manhã de domingo, com um sol de outono e o vento gelado derrubando as poucas folhas secas que se seguravam nas árvores. O gosto do café se misturando com o gosto do creme dental, aos poucos dominando as papilas gustativas com sua amargura. Um fio de fumaça azulada sobe por entre os dedos que seguram o cigarro, enquanto expulso a núvem de tabaco e alcatrão dos pulmões.
Ouço os passos dela, distantes, andando na ponta dos pés, seguidos pela sinfonia de violinos que se fazem ouvir quando ela passa pelas calçadas dessa cidade. Já posso sentir o cheiro dos cabelos e da pele recém lavada. Sinto o cheiro da sua respiração, do seu vestido, o cheiro da sua presença.
De repente, posso tocá-la com as costas das mãos. Posso tocar em seu rosto com a ponta dos dedos e vê-los deslizarem, devagar, por entre os olhos fechados e a pequena curva do nariz até chegar à boca sem batom e ao queixo delicado.
Posso sentir o gosto de álcool de seu perfume. Sinto o gosto da inocência perigosa e esperta que ela tem. Pareço poder sentir o gosto desse instante, rolando entre a língua, explodindo como fogos de artifício no céu da minha boca. Sinto o gosto da maçã de seu rosto quando à mordo, o gosto doce de tê-la por perto, sinto o gosto de imaginar qual deve ser seu gosto.
Então, posso vê-la cruzando a esquina, atravessando a rua e destacando-se no meio desse universo cinza, como a garotinha de vestido vermelho de A Lista de Schindler, parecendo não se importar ou não perceber o caos ao redor, talvez por conta do som dos violinos que tocam de acordo com a órbita de seus quadris. Posso vê-la, chegando sob um céu de Monet, de um modo misterioso e imprevisível, como um acidente prestes a acontecer.
Posso sentir a sensação de me perder nas cores de seus olhos, perder a direção em suas curvas, perder o juízo, perder o fôlego. Posso sentir a sensação de me jogar, em queda livre, neste abismo que ela é. Um abismo de um metro e sessenta e seis. É isso o que ela é: um abismo, uma fronteira, uma armadilha com seus lábios de arame farpado.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Embriagues de sobriedade

Então, aprendemos a andar juntos, através de mudanças de comportamentos e assuntos. Sob uma tempestade de inveja e insultos, ensaiamos mentiras, algumas vezes inacreditáveis, outras vezes bons argumentos.

Depois aprendemos a buscar e fugir da luta, admirar ou impedir a força bruta, ignorando, vez ou outra as afrontas e insolências de qualquer filho da puta. Nos impregnamos dessa covardia, como se fosse a unica conduta.

Talvez, tenhamos sido enganados. Quem sabe abençoados? Podemos ter que admitir que agora somos arrogantes e mal acostumados, mas isso não passa tão perto de um pecado, seriamos absolvidos ou abandonados.

É claro, chegaremos até onde for possível, nos habituamos ao que é aceitável e nos torturaremos com o que for inesquecível, pois nossa sede é insaciável e nossa cobiça é desprezível. É tudo tão incomensurável, que o defino como incrível.

Por fim, só resta o suplício. A emoção do ócio colidindo-se contra os muros deste vício. Toda a certeza do final vem do receio de um início. Quando as luzes se apagam eu me calo, pois entre entre o som e a palavra eu prefiro o silêncio.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

De volta...

Gosto da estrada, da emoção da partida, das paradas no acostamento, dos desenhos e defeitos no vidro que me impedem a vista completa das cidades e vilas que passam. Gosto da insegurança, da possibilidade e da alta probabilidade de algo acabar dando errado.
Gosto do barulho do motor, a pressão da frenagem e até mesmo do cinto de segurança. Gosto quando as luzes se apagam do lado de dentro, fazendo da janela um grande quadro, que se move e muda cada vez mais a cada quilometro, como um filme, seguindo uma sequência, um roteiro que talvez nós ja saibamos onde vai chegar, mas que quando visto novamente se parece parcialmente novo e tão surpreendente como da primeira vez. 
Se por acaso me sento na poltrona do corredor, me estico um pouco pra conseguir ver através da janela e me espremo o bastante para os outros passarem pela estreita trilha que corta o automóvel. O conselho é quase sempre o mesmo: "escolha sempre um lugar no lado do motorista". Conselho este que sempre pensei ser um absurdo, sendo que, se por um descuido da sorte um acidente acontecer, não seria muito lógico tentar controlá-lo, mesmo porque nunca se sabe de que lado ele acontecerá, se é que existe um lado especial pra acidentes acontecerem.
Gosto do ar condicionado, secando e irritando a garganta e as narinas. Gosto das duas lâmpadas na parte de baixo do bagageiro superior, muito úteis nas horas de leitura e das cortinas raramente usadas nas raras horas de sono. Gosto das casas na beira da estrada, de imaginar como deve ser viver ali, nas artérias da terra. E, é claro, tenho todo um carinho especial pelas pontes, das mais simples e perigosas até as mais bonitas e modernas. Gosto muito também dos túneis, do barulho abafado, da luz alaranjada e do alívio ao ver a luz do dia ou o breu da noite no final. Gosto da escuridão sendo interrompida, por segundos, pelas luzes de qualquer posto de combustível saturado de caminhões estacionados perto de restaurantes, lachonetes ou motéis próximos.
Gosto das curvas, das retas, das descidas e subidas. Gosto de viajar de tarde, de manhã, mas prefiro a noite. Gosto de viajar sozinho, com alguém ou com muitos. Gosto de reclinar o banco e olhar pra fora. Olhar pra fora de mim, do meu mundo, dos meus hábitos e rotinas. Gosto de ver quem há muito não vejo e conhecer pessoas das quais nunca imaginei a existência, ir a lugares novos ou até mesmo aos antigos dos quais senti saudade. Gosto de partir, mas gosto mesmo é de voltar. Pra casa. Gosto mesmo é do abraço de boas vindas e do beijo de saudade. Gosto de saber o que aconteceu enquanto eu estava fora e imaginar o que vai acontecer agora que voltei. Gosto do cheiro daqui e das cores que tudo tem aqui. Gosto do gosto disso tudo.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Graça

"Sim, é claro, o amor é uma graça. Nos faz tão mal e tão bem, mais do que qualquer outra coisa nos faça. Nas músicas, nas artes ou em qualquer papel que se amassa. Amor. Luminoso e irresistível como uma lâmpada em meio às traças. O amor que tu procuras e em seguida te afastas, tu foges pelas ruas, desvias dos defeitos das calçadas, por entre prédios, parques e praças. O amor, dono da vontade da entrega e o prazer das ameaças. Aquilo que você não gosta, mas que se abraça. Aquilo que você tem medo, mas sempre vai à caça. Aquilo que vem e vai, mas nunca passa."

André Rossetto

"Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo directamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira..."

Pablo Neruda

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Há pouco tempo atrás...

...o assunto era o medo, de perder, de ganhar, de tentar e falhar ou desistir e se arrepender. Hoje quero falar sobre o que deveriamos fazer ou deveriamos ter feito. De tudo que nos traz medo, todo o cuidado e o que repelimos, a única parte de que não deveriamos nos separar ou esquecer é de como era amar, de como conseguir isso de novo, de como criar isso a partir de um futuro sem garantias.
As vezes penso que nosso único erro é se defender demais, se blindar de tudo, não ter coragem de sentir o que sempre se quis. Falo porque sei, não porque me disseram, mas sim por isso ter acontecido comigo também. Todo esse medo, do futuro instável, do destino imprevisível, de não saber se devemos dar o próximo passo ou não. Eu já passei por isso e perdi muito por isso.
Admiro o senso de proteção natural que envolve algumas pessoas, mas quando paro pra pensar em segurança e estabilidade, me lembro de repente de quando eu era feliz, bem feliz, e corria pra longe de toda e qualquer garantia de que tudo seria certo e feito sob medida para as minhas necessidades e realizações.
Uma época em que tudo se parecia com uma queda livre, mas que eu não me preocupava se o pára-quedas abriria ou não, apenas admirava o momento, com a certeza de que ele não voltaria por mais que outros saltos viessem em seguida, mas também com a certeza de que outros saltos seriam tão bons quanto os anteriores e que se um dia eu chegasse ao chão antes de o pára-quedas se abrir teria, mesmo assim,  valido a pena os momentos de dúvida e incerteza que tive, mas nunca os momentos de hesito.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Como uma pedra...

...sim, ela sempre foi como uma pedra, no leito de um rio, no meio da estrada, talvez até estilhaçando alguma vidraça. Tão sólida, tão bruta no explendor de suas poucas cores. Foi como uma rocha, a Rolling Stone, despencando de qualquer abismo, deixando pequenos pedaços de si por onde esbarrava, deixando marcas por onde passava e levando consigo fragmentos do que atingia.
Ela sempre foi como uma pedra, preciosa ou não, mas sempre uma pedra que ainda não foi lapidada e talvez nunca será. Aquela pedra no leito de um rio, que tudo suporta, que às vezes é carregada pela correnteza, mas logo encontra outro lugar para se fixar.
A pedra que todos admiraram de longe e acabaram se despedaçando contra ela por chegarem perto demais. A pedra no meio do caminho, que alguns se desviaram temendo os riscos. A pedra que alguns chutaram, desprezando seu hipotético valor. A pedra em que alguns tropeçaram, não percebendo seus perigos ou não confiando-lhe a definição de obstáculo.
Sempre como uma pedra, estilhaçando vidraças. Sendo lançada contra algo e, consequentemente, sendo atingida de volta, incontáveis vezes, como se fosse feita pra isso. Como se essa fosse sua importância, seu sinônimo. A pedra fundamental, a pedra na qual alguém sentou-se para descansar e admirar a vista. A pedra que alguém colocou em um anel, a pedra que todos ignoraram e acabaram esmagados por seu peso, a qual todos julgaram-se mais sólidos. A pedra que suporta, que tudo aguenta e tudo sustenta, porque foi feita pra isso. Suportar a pressão e manter-se em seu lugar.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Logo eu...

...Que sempre me achei tão esperto, tão inovador, versátil e a frente do meu tempo. Logo eu, que sempre me achei tão capaz e obstinado, que sempre achei saber o que precisava saber, transformando essa arrogância, essa prepotencia, em um lifestyle absoluto. Como se tivesse certeza do que eu queria ser, do que iria me tornar e do que a vida me reservaria.
Logo eu, que sempre pareci tão seguro de mim mesmo, tão confiante a respeito do suposto talento que eu tenho, tão faminto por novos horizontes e novas possibilidades. Logo eu que tratei e destratei, a tudo e a todos, do modo que melhor me convinha. Com tanta pose, tantos discursos bonitos, tantas opiniões. Logo eu que escrevia músicas tão boas pra mim mesmo, desenhei tão bem sem nunca ter estudado, argumentava tão bem sobre qual fosse o assunto na mesa.
Eu que sempre me achei esperto o suficiente para me destacar, sem precisar passar a perna em ninguém. Eu que sempre acreditei no dom que imaginava ter, acreditei na tendencia a ser o centro de conversas sobre pessoas sensatas e inteligentes. Eu mesmo, que acreditava, duvidei, acusei e apontei o dedo, voltei a acreditar. Eu que voltei atrás e me arrependi, entrei em contradição e menti tantas vezes pra sustentar o castelo de aparencias e continuar atuando nesse eterno teatro de marionetes, criando o roteiro que mais impressionasse, com as melhores caras e bocas que minhas qualidades cenicas permitiam.
Logo eu, tão admirado, ou nem tanto assim, mas pelo menos percebido. Logo eu...
...Me vi tão atrasado, contente com o avanço dos outros, mas tão decepcionado. Não me vi invejando o sucesso de ninguém ou mal dizendo suas conquistas e realizações, mas sim cobrando alguma atitude genuina, que realmente partisse de mim, que me trouxesse algo, material, espiritual, substancial e não mais artificial. Pois cansei das aparencias, de como ter que parecer ou agir. Cansei dessa cartilha, desse manual que eu mesmo ajudei a escrever e definir como plano de voo.
É engraçado, pensar em descer da pratileira de troféis, descer um degrau dessa escada feita de ego. É comico sentir-se bem sozinho, sem ninguém que consiga me atrasar e que eu consiga decepcionar. É bom respirar o mesmo ar, seguir o senso comum e escapar dos meus próprios moldes, feitos sob medida para o tamanho da minha fantasia e imaginação. É bom se sentir tão pouco e nem ser tão percebido, não ter o nome pronunciado e nem ser tão importante pra alguém. É bom poder descansar e pensar algo a respeito de mim mesmo, poder me criticar e me elogiar. Conseguir ficar mais comigo, do que maquiar a realidade ficando com alguém, como uma muleta, uma ponte que imaginamos ser sustentada por outra pessoa. É bom não ter o mundo seguro pelas mãos de Atlas, é bom não ter que lutar contra o sol pelo centro do universo.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A minha inveja...

...sempre foi dos surfistas e tenho dito! Os Rockstars e os bilionários que me desculpem, mas creio fielmente que os que chegam mais perto de decifrar o sinônimo de vida são eles. Sempre invejei a calma e o controle, a arte de dominar algo tão bruto, tão natural e inconstante.
 Os filósofos e poetas que entendam, vocês ficaram tanto tempo pensando e criando seus próprios universos. para que pudessem realizar suas aventuras. Enquanto isso, pessoas mais simples resolveram se aventurar nesse mundo comum e criar uma grande forma de paz e ligação.
 Os cientistam contestarão, mas terão que concordar que enquanto estabeleciam limites e impossibilidades, os surfistas estão entre ondas maiores que as casas em que moram. Enquanto vocês se concentram em tubos de ensaios, eles estão dentro de tubos d'água, dos quais, sempre sonhei em estar.
Os outros esportistas, ou até mesmo os sedentários, que tentem estabelecer algo similar com a arte de andar sobre os oceanos, amar o que faz e passar esta paixão para as suas próximas gerações.
 E os outros mortais, que aprendam como estabelecer esta ponte, feita de fibra e parafina, com o corpo e a alma. A conexão entre o homem e o ambiente.
Deus abençoe os surfistas...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O que poderia ter sido melhor?

O que poderia ter sido diferente? Tudo? Apenas a metade ou alguns poucos momentos, decisões e resultados? Teria sido melhor se tivessemos lido todas as regras do contrato, mesmo aquelas escritas com letras pequenas, no rodapé, seguidas de asteríscos?
Talvez teria sido melhor se tivessemos um pouco mais de medo. Não responsabilidade, nem paciência, tampouco moderação. Medo!
Medo de meter os pés pelas mãos, o medo de acabar tomando a atitude que você nem mesmo queria, o medo de conquistar o que você nunca desejou. O medo que é maior do que o medo de perder a vida, o medo de desperdiça-la, de gastar-la como um simples palito de fósforo. Não vos aconselho a temer a vida, muito menos temer a morte.  O que posso aconselhar é que temam o tamanho e a força das suas escolhas, que tenham medo do que podem conseguir e que respeitem as consequências dos atos que, bem pensados ou não, são de sua responsabilidade. Tenha medo, isso pode salvar sua vida um dia.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

...Ocasionalmente!

O acaso é, realmente, intrigante e surpreendente. A extraordinária capacidade que todas as coisas possuem de virar de pernas pro ar, em questão de minutos. É tudo tão fascinante! O modo em que ignoramos as regras, não recebemos os avisos, esquecemos dos cuidados e insistimos em arriscar, em apostar até o que não temos no que cremos ser o que sempre sonhamos ou apenas a alternativa mais providencial.
O acaso é, realmente, imparcial e imprevisível. A incrível mudança de comportamento que o tempo nos leva a cultivar. E nós acabamos habituados com a frequência da quebra da rotina, mas nunca nos acostumamos com a sensação desse rompimento de universos, de dimensões. Assim como a primeira reação da vida, ao ser retirada de sua primeira rotina, do seu primeiro universo, é o choro. A lágrima pura, vinda da primeira vez em que enchemos o pulmão de ar, vinda da lâmina que nos separa do plural, nos colocando de vez no singular.
O acaso, em sua maior parte, nos leva a crer que tudo está acontecendo lá fora e que tudo parece muito terrível e perigoso, mas que não é tão ruim enquanto não acontece com você. Ou será que nós queremos acreditar nisso? Que "não é porque aconteceu com ele que vai acontecer comigo". Esse instinto falho de segurança, essa confiança cega de que nada vai acontecer, afinal, as coisas acontecem com as outras pessoas, que vimos na televisão, em diversos canais revezando as tragédias diárias. No final o acaso está esperando, pra colocar a sua vida em um liquidificador ou quem sabe em uma montanha-russa. O acaso é um milagre, uma doce maldição. O acaso é o dedo de quem aponta os erros que acabará cometendo, talvez até pior. O acaso é um acidente esperando para acontecer.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

...

Lá fora, em algum lugar, o dia nasce e em outro lugar a noite cái. Lá fora, em algum lugar, alguém pede aos céus um pouco de chuva, como se a esperança caisse em gotas, e em outro lugar alguém implora que a água pare de cair e levar tudo consigo.
Lá fora, o amor passeia de mãos dadas com o ódio pela mesma calçada em que vem a paz e a guerra. Mas eu...
...Eu quero ficar aqui!
Lá fora, existe a fome, a miséria e a violência. Nesse momento alguém está nascendo no mesmo canto da cidade em que alguém está morrendo. Lá fora, pessoas trabalham, ou não. Pessoas são roubadas e enganadas. Lá fora existem garotos e garotas perdendo a virgindade e senhores e senhoras perdendo a vontade, se é que vocês me entendem. Mas eu...
...Eu vou continuar aqui!
Lá fora, alguém vê o amor chegando ao mesmo porto em que alguém viu ele partindo. Lá fora, as pessoas estão se matando por chamarem um mesmo Deus por nomes diferentes. Lá fora, alguem que está chorando procura um bom motivo pra viver sorrindo. Lá fora, alguém está doente, de uma doença sem cura, que pouco se sabe à respeito. Alguém também se cura do mal que outro alguém tenha lhe feito. Mas eu...
...Eu vou ficar aqui, assistindo você dormir. Me esquecer que há vida fora desse quarto, esquecer do que eu já te escrevi ou das grosserias que já te falei. Eu só preciso te ver deitada, com o seu cheiro dominando o quarto, eu preciso ouvir sua respiração como uma sinfonia. Eu...
...Preciso ter dar meu coração e deixar você parti-lo.

Parole in bianco e nero...

São sempre as mesmas... As mesmas voltas que o mundo insiste em repetir, o mesmo ponteiro girando ao mesmo tempo.
São sempre as mesmas esquinas que viramos, as mesmas linhas que evitamos pisar, as mesmas pessoas que encontramos e não lembramos. É sempre a mesma velha história, a mesma vontade. Sempre os mesmos vícios.
As mesmas bocas que nós beijamos, os corações que partimos, sempre os mesmos planos que criamos, os milagres que não vimos. Sempre as mesmas invenções, as mesmas novidades, a mesma velha rotina maldita. Ainda somos as mesmas pessoas que nos tornamos para não mais ser os mesmos. Você sente o mesmo ódio que sentimos, você chega ao mesmo tempo em que voltamos e se vai do mesmo porto de que partimos. Somos os mesmos homens que éramos, mudaram as cavernas em que vivemos.
Então criamos tudo que já foi criado para tornar tudo mais ágil e simples, mas continuamos vivendo com a mesma pressa. Ainda ouvimos as mesmas músicas, assistimos os mesmos filmes, contamos as mesmas piadas e elegemos os mesmos politicos. Nós ainda escrevemos, mesmo por que, precisamos ler as mesmas palavras... Palavras em branco e preto.

Vivendo e não aprendendo...

Andei cansado por um tempo, depois desse tempo em que eu cansei de andar. Disseram que seria bom pra pensar, que as coisas ficam um pouco mais tragáveis. Andar... Andar até algum lugar onde o ar não pese tanto, onde eu possa parar e descançar um pouco. Andar pra sentir as articulações enferrujadas reclamarem e os ligamentos darem um nó. E a cada parada os músculos queimarem e expirar, expulsar o fogo dos pulmões.
Ai sim, acender um cigarro e sentar na beira da estrada, nenhum carro, ninguém por perto, nenhum ruído que não seja o do vento correndo por entre o labirinto de folhas nas árvores ao redor e o estalo do papel que se queima a cada trago. É quando você percebe que essa caminhada não te fez pensar e que era exatamente disso que você precisava. Prestar atenção nas coisas que passam sem grandes expectativas, nada de extraordinário e no entanto inacreditavelmente encantador. É uma questão de sintonia, consigo e o ambiente que lhe cerca. É uma questão de não procurar definições polidas ou soluções filosóficas. A definição é simples: É foda!